


Capa /Cover: Cludio Mesquita (d'aprs Picasso)
Traduo /Translation: Elizabeth Station
Editorao Eletrnica: Affonso P. Seabra
Composio a laser/Laser composition: Roberto Brando/
      Interface 2.000
Impresso /Printing: TGI
Correspondnda com o autor /Author's mailing address
Associao Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA)
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Copyright  1989, by Herbert Daniel.
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               ESCRITRIO E TIPOGRAFIA JABOTI LIDA.
               Rio de Janeiro - Brasil






                       Herbert Daniel





                    VIDA ANTES DA MORTE

                     LIFE BEFORE DEATH 






                     Tipografia Jaboti

                            1989








                    VIDA ANTES DA MORTE











                                               para

                   Betinho, Walter, Silvia, Ranulfo,
                   Carmita, Cludia, Mnica, Neuci e 
                                              Srgio,


                            exmios em solidariedade,

                                      vivamente,


                                        Daniel











             Quando adoeci, com uma infeco
             tpica da Aids, percebi que a primeira
             pergunta a ser respondida  se h vida,
             e qual, antes da morte.














                           APRESENTAO





    Este pequeno livro rene trs textos que escrevi no princpio
de 89, assim que descobri que estava com Aids, e um pequeno
artigo escrito h dois anos que tem um tom que considero ade-
quado ao meu momento presente: uma necessidade de, com
algum humor, desmontar as mistificaes criadas em torno da 
epidemia (ou epidemias) de Aids.  maneira de um posfcio,
segue um texto de Cludio Mesquita, meu comparsa de vida h
17 anos. Cludio escreveu este texto numa madrugada insone,
uma das muitas que atravessou, enquanto eu convalescia de uma
crise da doena.  quase uma carta. Ou a cartografia da mina da
solidariedade. Alis, como todo este livro, que imagino como uma
carta aberta.  vida. Aos vivos, como eu. Aqui estarei conjugando
o verbo viver em todos os tempos, constantemente. Porque no
h outra maneira de encarar e ultrapassar a morte e a mesqui-
nharia de seus mensageiros.
    Pretendo nesses textos muito mais do que fazer um depoimen-
to (detesto este termo que cheira a tribunal). Pretendo que eles
tenham uma finalidade muito prtica: dizer que a Aids pode ser
evitada, que pode ser vencida. Dizer tambm que pode ser vivida
sem pavor ou preconceitos; que pode ser vivida como se vive
qualquer dificuldade do existir. Dizer ainda que a solidariedade
 uma fora poltica - a nica capaz de transformar o mundo.
    Entendo que a Aids , complexamente, um problema poltico
tpico da civilizao contempornea. Num pas como o nosso,
lutar contra a Aids  ajudar a construir a cidadania de uma
maioria de explorados e oprimidos. Como toda epidemia, a Aids
se desenvolve nas fraturas e desequilbrios da sociedade. No se
pode enfrent-la tentando obscurecer as contradies e conflitos

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que expe. Pelo contrrio,  revelando-os que melhor se entende
(e se pode neutralizar) o avano do vrus e do vrus ideolgico do
pnico e dos preconceitos. Portanto, h uma disputa envolvida
nessa epidemia que no se reduz ao confronto biolgico. H uma
construo a ser feita que envolve a democracia e o prazer da
diversidade.
    Com muito prazer combato nessa luta. No corpo. E naquilo
que, alm do corpo, garante seu prazer: a liberdade. Ou, como
queiram, a vida antes da morte.

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                   NOTCIAS DA OUTRA VIDA




    De um momento para outro, o simples fato de dizer eu estou
vivo tornou-se um ato poltico. Afirmar minha qualidade de
cidado perfeitamente vivo  uma ao de desobedincia civil.
Por isto, repito constantemente, desde que soube que estava com
Aids, que sou vivo e cidado. No tenho nenhuma deficincia que
me imunize contra os direitos civis. Apesar da farta propaganda
em contrrio.
    Doente, a gente fica. Morrer, toda a gente vai. No entanto,
quando se tem Aids, dizem ms e poderosas lnguas que a gente
 "aidtico" e, para fins prticos, carrega um bito provisrio, at
o definitivo passamento que logo vir. Eu, por mim, descobri que
no sou "aidtico". Continuo sendo eu mesmo. Estou com Aids.
Uma doena como outras doenas, coberta de tabus e preconcei-
tos. Quanto a morrer, no morri: sei que Aids pode matar, mas
sei melhor que os preconceitos e a discriminao so muito mais
mortferos. Quando morrer, que a morte me seja leve, mas no
me vou deixar matar pelos preconceitos. Estes matam em vida,
de morte civil, a pior morte. Querem matar os doentes de Aids,
condenando-os  morte civil. Por isto, desobedientemente, pro-
curo reafirmar que estou vivssimo. Meu problema, como o de
milhares de outros doentes, no  reclamar mais fceis condies
de morte, mas reivindicar melhor qualidade de vida. Problema,
alis, que  comum  quase totalidade dos brasileiros.
    Quando adoeci, com uma infeco oportunista tpica da Aids,
entre a febre e o espanto de reconhecer em mim o chamado mal
do sculo, imaginei logo que o meu problema dali para a frente
seria equacionar minha morte. No foi assim que se passou,
embora eu ache que a tenha visto de perto, e tenha descoberto que

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morrer  mais fcil do que antes supusera. Confesso que minha
inquietao maior no foi responder  inefvel questo de saber
se h vida depois da morte. Percebi que a primeira pergunta a ser
respondida  se h vida, e qual, antes da morte. S respondendo
a esta questo creio que  possvel encarar nossa prpria morte.
Ou seja, equacionar os absurdos prprios disso que chamamos
condio humana.
    Recebi a notcia de que estava com Aids de forma mais trau-
matizante do que a provocada pelo simples fato de me saber
doente com tal gravidade. O mdico que procurei, numa urgn-
cia, me comunicou que eu estava doente, me deu uma receita, me
cobrou quarenta mil cruzados e me dispensou do seu gabinete.
Tudo isto em quarenta segundos. Foi este o tempo de que disps
e me deu, para absorver o choque. Enquanto isso, me encarava
com uma olmpica indiferena de tcnico de laboratrio. Eu era
apenas uma doena. E, o que  pior, uma doena de homossexual.
Estou convencido de que  o preconceito que provoca tamanha
desumanidade, associado a uma ignorncia completa sobre a
epidemia. H uma sutil violncia, gerada pelos preconceitos, que
faz crer que um homossexual est sendo castigado por uma culpa
que carrega. No  um doente;  um relapso.
    Situaes como esta tm sido tristemente freqentes. Amigos
meus viveram experincias semelhantes, ou manifestaes de
discriminao mais terrveis ainda. Dificilmente se pode fazer
alguma coisa contra este poder mdico hermtico e arrogante. Ele
possui uma impunidade total. Certamente, h muitos mdicos
que no acreditam nesta prtica de medicina. Como os que, com
solidariedade e competncia, me salvaram a vida naquela crise;
salvaram-me inclusive daquela mostruosidade clnica que possui 
um diploma de doutor.
    Na verdade, diante da frieza clnica daquele incio de trata-
mento, apavorei-me com a perspectiva de cair nas malhas de uma
mquina mdica capaz de assassinar por no entender nada de
solidariedade. Essa Aids, medicalizada por tecnocratas da morte,
 que  o grande horror. Pouco tem a ver com a doena real.
    De fato, h uma Aids que se tem definido, a partir de uma
viso estreita e antiquada de medicina, como contagiosa, incur-
vel e mortal. Isto , pelo menos, o que reafirma monotonamente,
nesta ltima dcada, toda a propaganda oficial ou oficiosa sobre
a doena. No  uma grande mentira,  simplesmente um conjun-
to de meias verdades. Como tal, essas caractersticas atribudas 
Aids criaram uma vasta mitologia e so fonte dos piores estigmas
que a doena carrega e das piores discriminaes contra o doente.

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    Em primeiro lugar, contagiosa a Aids .  uma doena provo-
cada por um vrus, o HIV, que se transmite sexualmente ou
atravs da troca de sangue. O vrus no se transmite, seguramen-
te, por outras vias. No entanto, por ser uma doena transmissvel
sexualmente, surgem sobre sua contagiosidade fantasias diver-
sas, decorrentes certamente dos mistrios e pavores gerados pela
ignorncia sobre a sexualidade. O doente de Aids carrega consigo
os estigmas que marcavam grupos j marginalizados e discrimi-
nados, como os homossexuais e os usurios de droga. Tudo isto
leva o doente a um processo de clandestinizao. Alm de se ver
afetado por uma doena grave, ter de viv-la solitria e clandes-
tinamente  a pior tragdia que pode ocorrer a uma pessoa com
Aids. Para combater a morte civil, o doente tem de romper com
as barreiras da clandestinidade. Acredito que todos ns temos de
nos curar da vergonha, da culpa e do medo. Por isto,  necessrio
que as pessoas com Aids no se escondam. Mostrem-se como so.
Falem de sua situao. Formem grupos de auto-ajuda e participa-
o social. Esses grupos, destinados a combaterem a morte decre-
tada da clandestinidade, no serviro apenas para terapia de seus
membros. Serviro, principalmente, como terapia para uma so-
ciedade que adoece com a discriminao que cria o que a Orga-
nizao Mundial de Sade chama de Terceira Epidemia de
Aids - a epidemia do pnico e dos preconceitos. 
    Em segundo lugar, a incurabilidade da Aids  apenas um
atestado de falncia de um certo tipo de medicina. Estou dizendo
isto sem a mnima inteno de diminuir a gravidade da doena,
nem de apontar para curas milagrosas. No se conhece, por
enquanto, nenhum mtodo para retirar do corpo o HIV. Mas a
cada dia conhece-se mais e mais mtodos para diminuir seus
efeitos, Insistir na incurabilidade da Aids no material de divulga-
o sobre a doena , sobretudo, uma estratgia de
apavoramento. Essa  a pior estratgia para informaes para a
sade. O mximo que se consegue, ao amedontrar as pessoas, 
afast-las da verdadeira informao cujo objetivo  fornecer m-
todos de preveno e ensinar: A Aids pode ser evitada. Mas
divulgar de forma absoluta a incurabilidade da Aids como algo
insupervel tem outro aspecto oculto. Serve aos interesses de
vrios tipos de comerciantes de medicamentos e teraputicas.
(Recentemente um deles visitou o Brasil, vendendo AZT e pro-
nunciando inevitveis sentenas de morte.) Tambm serve aos
interesses de vrios tipos de curandeirismo.
    A noo da incurabilidade repetida infindavelmente leva
muitas vezes o doente ou portador do vrus a procurar obsessi-
vamente curas improvveis. O doente acaba vivendo sob a dita-

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dura da teraputica. De tanto querer se curar, acaba tendo tempo
apenas para se tratar, sem a mnima metodologia nas escolhas que
faz para o seu tratamento. 
    Desde que adoeci, recebi as mais fantsticas propostas de
"tratamento", apontando para curas infalveis e milagrosas. Se
fosse crer em todas, chegaria  concluso de que nada se cura mais
do que Aids, e tentando cada uma delas no faria mais nada.
Como tenho, hoje mais do que nunca, a necessidade de planejar
meu tempo para viver, dispenso os milagres de aluguel. Prefiro
viver do que simplesmente me curar de alguma coisa que os
tratamentos j no sabem o que seja.
    Para pessoas com Aids, a seleo dos mtodos de tratamento
deve obedecer a informaes seguras.  claro que cada um se 
tratar de acordo com sua vida anterior, escolher mtodos de sua
confiana. Muitos, no Brasil, eis nossa tragdia, morrero sem
nenhum recurso fornecido pelo governo para se tratar. Tero de
escolher outras vias de tratamento. Mas  preciso sobretudo no
se deixar iludir. A cada iluso corresponde uma desesperana. E
manter a esperana  fundamental, como mtodo teraputico.
    Enfim, dizer simplesmente que a Aids  mortal tem servido
apenas como condenao  morte dvil. Quem est contaminado,
ou doente, vive numa outra vida, no alm. Esta tem sido a base
de toda a propaganda govemamental, no Brasil. No  de sur-
preender. Este pas, que no se ocupa de sua sade, ainda no se
deu conta da gravidade da epidemia de Aids. Ainda no existe
um programa nacional de preveno e controle da epidemia. No
h informao, apoio ao doente, medicamentos, hospitais. Os
burocratas do governo, de olho gordo nos financiamentos inter-
nacionais em que a Aids  prdiga, fazem programas para ingls
ver e querem mesmo  que o doente morra. De preferncia, em
silncio.
    Pois eu no pretendo me calar. Estou enviando a esses buro-
cratas, que nunca viram um doente, notcias daqui. Da vida. Eles
esto moribundos, no lamaal do govemo Sarney. Eu estou vivo.
E como milhares de brasileiros com Aids, exijo uma mudana de
rumo na poltica sobre Aids. Que seja fundada na compreenso
do problema epidmico e guiada pela solidariedade.
    Como todo brasileiro, sei que no merecemos isto que desabou
sobre ns, como doena da desesperana. Sei o que a gente
merece. Outra vida. Por mim, tenho todo o tempo do mundo para
constru-la.

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                       O VRUS  INOCENTE





    Com quatro letras pode-se escrever amor, sexo ou Aids. A
economia libidinal de hoje tem preferido escrever a sigla, pois
parece uma coisa mais tcnica e sem desvios.
    A Aids, afinal, deveria ser apenas uma epidemia: uma infeco
virtica que se espalha no mundo certamente em conseqncia 
de um desequilbrio ecolgico produzido pela civilizao indus-
trial. Isto  uma generalidade que no apavora ningum, apenas
preocupa, e permitiria at discutir com serenidade as medidas
eficazes de controle da epidemia.
    Entretanto, uma atitude to equilibrada no interessa, pois
no d lucros - nem financeiros, nem polticos, nem ideolgicos.
E lucrar  preciso, j que viver  intil nos nossos dias (dias, alis,
 anagrama de Aids). Por causa disso, uma coisa  a Aids, outra
coisa  a doena de mesmo nome provocada por um vrus.
    O vrus, pobrezinho, precisa ser defendido contra as calnias
de seus detratores. Tambm no pode ser responsabilizado pelo
pnico criado pelo entusiasmo dos seus defensores. Detratores
dizem que o vrus  moralista, preonceituoso e reacionrio. De- 
fensores insistem que  uma gloriosa arma da justia divina.
    Ao contrrio dos mdicos, o vrus no tem cdigo de tica e
no  ele quem briga para ganhar fortunas com testes, vacinas e
tratamentos. Ao contrrio de ilustres prelados, o vrus  inocente,
nem mesmo acredita num Deus vingativo, e no  sua funo
castigar os pecadores.
    Nem  verdade que o vrus seja um cafajeste a servio das
classes dominantes; ele no fez nenhuma opo poltica. Tambm
no se deve acreditar que seja homossexual. O caso dele  glbulo
branco, e tendo linfcito ele se locupleta, pouco se importando

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com as atividades sexuais do cliente.  infmia dizer que tem
preferncia por pecadores e pega alguns desprevenidos para
desmoraliza-los.O HIV no fez opo preferencial pela culpa, no
tem nenhuma moral,  apenas um vrus sem ms intenes.
    Mas a Aids-social  um forte estmulo  imaginao coletiva,
Diante da multiplicidade delirante de explicaes sobre a peste,
cada um se protege como pode. Sei de quem usa camisinha, por
exemplo:  uma que anda carregando no bolso, h seis meses,
para qualquer eventualidade. Na hora crucial, coloca a camisinha
na mesinha de cabeceira, argumentando que a utilizao mais
ortodoxa do preservativo nem sempre  segura, pois ele pode se
romper e a corre-se um grupo de riscos. Como se v, a informao 
objetiva  sempre um universo subjetivo. Estamos sendo bombar-
deados por informaes sobre a Aids, e quando digo
bombardeados estou querendo dizer isto mesmo.
    Entre a Aids-epidemia e o que se diz dela h uma enorme
distncia, ocupada por feroz batalha poltica onde o horror e o
ridculo se do a mo numa curiosa ciranda. Enquanto bondosas
e higinicas criaturas pregam a quarentena e perseguem os aid-
ticos, doentes se rebelam e usam seu sangue como ameaa (o que
demonstra, pelo menos, que no tm sangue ralo), e honrados
comerciantes distribuem fartamente sangue contaminado (o que
d ao Rio um recorde mundial: de Aids adquirida em transfu-
ses). J o nosso (?) governo impavidamente segue os trilhos da
pior campanha publicitria possvel, desinformando com met-
foras inteis e conselhos envergonhados. Ser preciso lembrar
que a morte no tem vergonha?
     E ainda h quem pense que a Aids  um problema mdico, 
criando toda uma ideologia da "cura",  espera de uma providen-
cial vacina ou de um milagroso remdio. Como toda epidemia,
esta reflete um estgio do nosso desenvolvimento social. Ento, 
bom levar em conta que, como em outras, o controle desta epide-
mia depende de novas formas de vida social e que o melhor
remdio continua sendo a solidariedade.


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                      QUARENTA SEGUNDOS
                          DE AIDS




    No fundo, eu acreditava no convencional:  muito duro, 
barra pesada demais,  um choque dificilmente suportvel,  um
terremoto,  o comeo de uma viagem sem volta. Ningum, de
fato -  o que eu acreditava - est preparado para receber uma
notcia dessas. Pelo menos,  o que eu pensava at receber esta
notcia: voc est com Aids. Recebi e foi assim mesmo: o comeo 
de uma viagem. S que entendi, no sem ironia, que nenhuma
viagem da vida tem volta e a vida  exatamente isto: a possibili-
dade de uma eterna volta por cima, sempre para a frente. O
melhor lugar do mundo  aqui. E agora.
    No que eu estivesse preparado. Ningum nunca est. Fui me
preparando como todo mundo se prepara, para viver uma nova
condio da vida. Condio da vida, digo de novo, para deixar
bem claro que no estou falando de circunstncias da morte
anunciada e imposta. Aprendi logo, de cara, na crise de sade que
levou ao diagnstico severo de Aids, que no "sou aidtico".
Apenas estou com Aids. Ser, continuo sendo o que no era nem
fui, por ser agora a continuao do pode ser que eu, como todos,
sou dia a dia. 
    Mas eu no estava despreparado. Estava vivo. Vivo estou. O
mais espantoso, e escrevo esta pgina para protestar contra isto,
foi o despreparo absoluto do mdico que me deu a notcia. Este
sim. Ilustre representante de uma medicina fssil que tem mais
de terrorismo do que de cincia, no est preparado para lidar
com pessoas, doentes ou no; est preparado para lidar com
aparelhos, bactrias, tortura e assassinato.

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    Certas histrias no acontecem com todos. Esta  uma delas e
vale a pena cont-la porque acontece com muitos e envolve
enredos cujos fios circulam atravs de todos os corpos.
    Adoeci. Por muitas razes, no acreditava que podia estar com 
Aids. No era a menor das razes o fato de recusar uma hiptese
to drstica. Afinal, a gente nunca acredita no "pior". E a Aids 
sempre mostrada como a "pior coisa". E eu no me sentia, nem
me sinto, com a "pior coisa do mundo". (H piores. Vivi coisas
piores. A ditadura. A perda da liberdade. O exlio. A clandestini-
dade. O assassinato e a tortura em massa. Lembram-se dos anos
de autoritarismo? Isto digo sem querer retirar em nada a gravida-
de da Aids. Apenas para coloc-la em sua devida perspectiva.
No  a "pior coisa que pode acontecer a uma pessoa".  uma 
situao trgica.  uma doena; no  um melodrama.)
    Embora muitas coisas no meu corpo pudessem fazer-me sus-
peitar da doena, eu nem desconfiava. Principalmente porque o
que eu via em mim no correspondia ao "padro" da doena.
Outra coisa que aprendi: cada caso  um caso, e a definio mdica
de Aids  uma generalizao terica. Que deve ser discutida no
apenas do ponto de vista de sinais e sintomas, mas do ponto de
vista dos grandes mitos da "incurabilidade" e da "fatalidade".
Ainda aqui no quero diminuir a gravidade da Aids.  sim,
atualmente, incurvel.  sim mortal. Mas no  s isto. Ou,
principalmente, a Aids no  isto "essencialmente", como querem
fazer crer os profetas do medo e da discriminao.
    Enfim, eu no suspeitava que poderia estar com Aids porque
no "parecia" com um doente de Aids. Agora, olhando no espe-
lho, sei com o que se parece um doente de Aids. Alis, este  um
exerccio que qualquer um pode fazer, diante do espelho, para ver 
a famosa cara da Aids. (Aprendi tambm que, embora peculiar,
no meu caso "pessoal", nada me leva a supor que meu caso seja
distinto de todos os outros casos. Esta  uma epidemia. Somos
uma multido. Vivemos uma histria deste tempo. Cabe a estes
tempos darem a resposta a este tempo.)
    Fui procurar, em emergncia, um "mdico" (as aspas servem
para no ofender outros dignos profissionais, como os que to
solidariamente me atenderam posteriormente). No o conhecia,
mas tive indicaes de sua "competncia tcnica". Erro crasso! A
competncia tcnica de um mdico  um humanismo, no um
treinamento de reflexos condicionados. Alm do mais, logo se
provou que inclusive tecnicamente tratava-se de um charlato.
No vou dizer o nome dele. A gente conhece muitos iguais. Ele
fica valendo como smbolo. Nem vale a pena divulgar seu nome,
pois poderia supor que desejo polemizar, coisa que at poderia

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vir a fazer ccegas na sua triste vaidade de borra-botas de labo-
ratrio.
    De todo modo, eu confiava nele para me dizer que mal me
atormentava. Que paciente no faz este tipo de transferncia?
Durante a consulta, deixou-me meia hora sentado, nu, na mesa,
depois de ter recolhido numa lmina uma poro do meu escarro.
Atordoado pela febre, com indcios de uma pneumonia que me
prostrava, esperei.
    Ele voltou, mandou que me vestisse e me comunicou em trs
frases que eu tinha uma pneumonia por Pneumocystis carinii,
"indcio seguro de uma imunodeficincia". Iria me dar o medica-
mento (o que fez, mas em doses equivocadas), depois eu iria fazer
o teste para comprovar a "outra doena" (como dizia eufemisti-
camente) que me levava a ter a pneumonia...
    Certamente, naquele instante, muitas coisas que sucediam no
meu corpo ficaram claras para mim. No duvidei do diagnstico.
No duvidei (por que iria?) quando ele me disse que vira o
protozorio. Simplesmente senti um choque que qualquer um
pode facilmente imaginar.
    Pois bem, em exatamente quarenta segundos o "mdico" me
deu esta notcia, me deu uma receita e me cobrou quarenta mil
cruzados, dispensando-me do seu consultrio. Assinar o cheque 
foi uma dura tarefa, principalmente para controlar o tremor da
mo.
    (Alguns dias depois, em circunstncias bastante diferentes,
confirmou-se que eu tinha Aids, mas a razo de minha crise era
uma tuberculose ganglionar. Muito provavelmente nunca tive a
pneumonia que ele diagnosticou. Muito provavelmente ele "viu"
a P. carinii atravs dos culos da minha homossexualidade, como
tantos "mdicos" vm fazendo.) 
    Quarenta segundos. Foi o tempo que ele me deu para absorver
a notcia. Foi suficiente para me dar sobretudo o horror de ver
diante de mim, naquela clnica indiferena, talvez uma certa
maldade: no estaria ele se "vingando" de mim por ser eu homos-
sexual e merecer receber um castigo? Pode ser. A gente nunca 
sabe a quantas andam a sexualidade - e o enrustimento -desse
tipo de "mdico".
    Horror - foi exatamente o que senti. Tinha diante de mim
uma mquina de diagnstico, uma aparelhagem mdica desuma-
nizada que poderia, de repente, me prender em suas engrenagens
e me levar a algo bem mais terrvel do que a Aids:  indignidade
de uma morte vazia, hospitalar, sequestrada de mim como expe-
rincia vital. Temi sobretudo o futuro que aquela monstruosidade
me previa. Sabia que iria estar sujeito a uma srie de infeces, e

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tive medo de ter, por causa disso, de ficar sujeito ao totalitarismo
dessa geringona mdica dirigida por essa corja de especialistas da
desumanizao.
    Tenho Aids. Esta  unta experincia corporal da qual ainda
tenho muito a falar. Mas que no tem nada a ver com a doena
que tive ali, diante daquele "mdico".
    Sa daquele consultrio transtornado. Quarenta segundos de
Aids! Escapei. Cludio, meu companheiro, me esperava aqui fora.
Meus amigos me esperavam. A vida me esperava. E livrei-me
daquela pavorosa doena que me matou por quarenta segundos.
Escapei. Com a convico de que  preciso libertar desse jugo
outros doentes. A Aids real  um caso muito srio para ser tratada
por "mdicos", por essa medicina que a Aids veio provar que 
faliu.
    De resto,  a vida. A cada quarenta segundos. Intensamente.

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                         ANTES, A VIDA

                                            


                                                    Rebento
                                           s vezes somente
                                       porque estou vivo...
                                             (Gilberto Gil)


    Sei que estou com Aids. Sei o que isto significa para mim.
Procuro no fazer nenhuma iluso sobre isto. S no sei o que
querem dizer quando afirmam que estou com "Aids". Na maioria
das vezes querem dizer: "voc vai morrer" (mas quem no vai?).
Outras vezes, e mais preconceituosas, dizem: "voc j era" (minha
experincia diria desmente isto). Algumas vezes resumem: "vo-
c perdeu suas resistncias" (nem todas! Nem todas... - resisto
indignado). Afinal, que Aids  esta? O que  isto de Aids?

              

            
                              1


    A construo do conceito de Aids tem sido feita, na ltima
dcada, atravs de uma batalha poltica e ideolgica mundial. Na
base da problematizao encontra-se uma definio mdica do
que se chama, de forma incorreta, de epidemia de Aids. De fato,
trata-se da epidemia provocada por alguns retrovrus, chamados
HIV (Vrus da Imunodeficincia Humana), transmitidos por via 
sexual, sangunea ou vertical (da me para o feto ou o beb). No
entanto, a conscincia mundial adotou a sigla Aids (ou Sida) como
um fato que se funda na definio tcnica e mdica e a transcen-
de. H alguns significados importantes que se cruzam,
obscuramente, na dana das palavras que procuraram definir a
nova doena - se no nova, pelo menos nova para a conscincia
contempornea e, certamente, uma novidade como epidemia
mundial.

19

    Do ponto de vista exclusivamente mdico, a definio de Aids
 puramente uma fico. A sigla referia-se, primitivamente, a um
conjunto de sinais e sintomas (isto , uma sindrome, na termino-
logia mdica) decorrentes de uma deficincia das defesas imuni-
trias do organismo. Essa imunodeficincia foi considerada
"adquirida" para diferenci-la de situaes congnitas seme-
lhantes. No entanto, imunodeficincias "adquiridas" so vistas
em vtimas de radiao, em pacientes submetidos a certas quimio-
terapias (em transplantes, por exemplo, para evitar a rejeio do
rgo transplantado), em certos casos de leucemia etc. Nos ter-
mos que compunham a sigla havia uma enorme incerteza. As
respostas vieram aos poucos, e ainda no esto completadas. 
    Analisada, do ponto de vista leigo, como estou fazendo, a sigla
 obviamente a sistematizao de algumas genricas observaes
iniciais sobre a doena. Certamente, se questionada com rigor, a
sigla trazia consigo a revelao do enorme desconhecimento que
se tinha na poca sobre a doena. O desconhecimento diminuiu,
nestes ltimos dez anos, mas continua. No entanto, a sigla pegou.
O problema  definir a que coisa se refere, no quadro complexo
do processo de infeco pelo HIV (isto individual ou coletivamen-
te).
    A expresso "sndrome de imunodeficincia adquirida"  to 
pomposa quanto vaga. Com palavras solenes que querem dizer
coisas demais, no fundo no diz coisa nenhuma. Trata-se segura-
mente de um formidvel exemplar da retrica mdica. Sabemos
como essa retrica corre para obturar, com um sonoro palavro
erudito, o buraco da prpria ignorncia. Ali onde pulsa a dvida
e a incerteza, o jargo, com sua arrogncia, tranqiliza a inquie- 
tao com uma expresso que se quer A verdade, ou a expresso
de quem possui a verdade. A palavra, frgil vu da incerteza,
torna-se a palavra de verdade e passa a funcionar por si mesma,
como uma espcie de absoluto, o ter que preenche o vazio que o
saber totalitrio abomina.
    Por no se referir exatamente a coisa nenhuma, a palavra
passou a deslizar sobre mltiplos significados, construindo um
significante para fissuras sociais anteriormente sem denominao
exata. A Aids torna-se, de fato, a sndrome de nossos dias (dias 
anagrama de Aids, esclarecedora coincidncia).
    E curioso pensar que, nos momentos iniciais do seu descobri-
mento, a doena foi designada por Grid - Gay Related immuno-
deficiency. E notvel que o jargo doutoral tenha fundado assim o
conceito de "peste gay" ou "cncer gay" que tanto se difundiu.
No entanto, mais notvel  o fato da utilizao da palavra gay ao
invs da erudita "homossexual", o que indica profundas altera-

20

es na viso mdica sobre as homossexualidades, decorrentes
certamente da importncia poltica do movimento gay, sobretudo
nos Estados Unidos. So os ares dos novos tempos, Assim, a
homossexualidade deixou de ser vista, pela medicina, como
doena, mas passou a ser considerada sutilmente como fonte de
doenas: de patologia passou a ser considerada condio patog-
nica. Mudana indicativa de uma feroz batalha ideolgica, onde
a medicalizao da sexualidade  parte de uma sombria estrat-
gia.
    O discurso mdico, com suas definies generalizantes que
tomavam ares de certezas definitivas, tropeou nos tabus e pro-
duziu sobre a doena a idia de que se tratava de uma fatalidade
ou de um mistrio fatal. H muito que ainda no se sabe sobre a
doena, mas o conhecimento acumulado permite afirmar, pelo
menos, que a Aids no  um mistrio. , sim, um desafio. Mas no
tem nada de mgico ou fantstico. Afinal,  uma doena como
outras. Por no saber fazer outra coisa seno mapear a sexualida-
de, a medicina nada compreende das homossexualidades e s
jogou lenha na fogueira dos preconceitos. A contagiosidade da
doena, expressa na ambigidade da palavra "adquirida", conta-
minou-se, enquanto conceito, com os tabus que envolvem a ho-
mossexualidade e fizeram da doena um escndalo, um pavor e 
uma fascinao. Por no poder, por princpio ideolgico, admitir
a morte, a medicina inventou uma incurabilidade fundamental
da doena: sua incompetncia tornou-se um destino prprio da
doena, como se houvesse na incurabilidade da Aids uma espcie
de carter sagrado, cheio de segundas intenes.
    Toda divulgao dada  doena centrou-se em trs aspectos
at agora: ela  contagiosa, incurvel e mortal. Esses so, de fato,
trs mitos que originam as mais deformadas e deformadoras
vises da epidemia. Alm dos vrus identificados como agentes
causais da epidemia, um vrus ideolgico espraiou-se de forma
mais generalizada e incontida.
    Pode-se dizer, sem nenhum recurso a nenhuma metfora, que
a nossa sociedade est doente de Aids. Doente de pnico, de 
desinformao, de preconceitos, de imobilismo diante da doena
real. Medidas eficazes contra a epidemia de HIV passam por
medidas concretas no combate ao vrus ideolgico. Isto significa:
informao correta, aes eficientes, desmistificao do medo,
esvaziamento dos preconceitos, exerccio permanente da solida-
riedade.
    Para o doente, ou simplesmente o soropositivo, a vivncia das
conseqncias das mitologias fabricadas pelo vrus ideolgico 
uma tragdia. As mistificaes objetivamente matam. Tanto

21

quanto ou mais do que a imunodeficincia celular. Conseqncias
dramticas das mistificaes so: incapacidade de reagir contra a
doena, falta de tratamento, multiplicao de curandeirismos e
charlatanismos, violncia contra os soropositivos e doentes. So
tambm a solido e a clandestinizao em que muitas vezes se
vem obrigados a sobreviver.
    Na base das mistificaes sobre a Aids esto meias-verdades
sobre fatos aparentemente objetivos, decorrentes de observaes
cientficas. O fato da doena ser contagiosa, incurvel e mortal
passou a ser, atravs de um simplismo rigorosamente inexato, a
definio mnima e operacional com que a sociedade lida imagi-
nariamente com a doena. Da emergem e revalorizam-se velhos
preconceitos contra grupos j anteriormente marginalizados
(principalmente os homossexuais) e, sobretudo, decretou-se a
morte em vida do soropositivo e do doente. Antes da morte
biolgica, a morte civil, a pior forma de ostracismo que pode
suportar um ser humano.


                              
                             2


    Mas h ainda outros problemas na definio de Aids, onde
esto inscritos outras espcies de preconceito. Observemos que a
doena  definida a partir de sua evoluo nos Estados Unidos e
na Europa. Seu "modelo" fundamental  primeiro-mundista. Os
modelos de Terceiro Mundo so "excees  regra". O "modelo
africano" (onde a transmisso  basicamente heterossexual) serve
como contraponto, no como base para compreenso do proble- 
ma global da pandemia. O racismo dessa viso etnocntrica tem
um efeito devastador.
    No Brasil, onde os estudos sobre a doena ainda so insufi-
cientes, os burocratas do Ministrio da Sade ficam fascinados
por "modelitos". Muito freqentemente vemos seus esforos para
demonstrar um "padro norte-americano" que teria vigncia
entre ns. Isto serve para duas coisas: 1. Para divulgar a idia de
uma doena de elite, vinda do "mundo desenvolvido" para nos-
sas classes privilegiadas (o que a prtica de quem trabalha com a
doena demonstra ser uma inverdade); 2. Para disfarar caracte-
rsticas bem prprias da doena no Brasil, como a questo da
transmisso por transfuso de sangue contaminado (o sangue
continua sendo um escndalo no nosso pas; houve e h um
genocdio cometido contra os hemoflicos e todos os que precisam
de sangue transfundido).

22

     fcil compreender que, no Brasil, a doena vai atingir uma
populao predominantemente carente. Isto porque carente  a
maior parte de nossa populao, e qualquer epidemia atinge
pessoas reais, num pas real. A Aids no  uma doena estrangei-
ra. O vrus est entre ns,  "nosso". E no conhece nem
orientao sexual, sexo, raa, cor, credo, classe ou fronteira.
    A epidemia entre ns vai se desenvolver de acordo com carac-
tersticas culturais bem prprias. Bem prprias de nossa cultura
sexual, bem prprias dos nossos recursos materiais e simblicos
para enfrentar as doenas e a sade, bem prprias dos nossos
preconceitos e de nossa capacidade de exercer a solidariedade. A
Aids se inscreve em cada cultura de um modo distinto. Cada
cultura constri a sua Aids prpria e especfica. Bem como as
respostas a ela.
    Essas respostas dependem hoje, em grande parte, da capaci-
dade da sociedade civil em mobilizar-se contra a Aids e obrigar
o governo a assumir suas responsabilidades. O governo atual do
pas ainda no tomou conscincia da importncia da epidemia.
Alis, no tem conscincia de nada. E apenas o estertor, ridculo
em sua mediocridade, de um sistema autoritrio que se perpetua.
No h nada, por enquanto, parecido com um programa nacional
de controle e preveno da epidemia do HIV. Por isto, a Aids no
Brasil vai ter o tamanho da incompetncia desse governo.
   Sei que estou com Aids. Sei o que significa para mim estar com
Aids, neste pas. No fao nenhuma iluso sobre isto, mesmo
sendo um privilegiado. Vejo muitos morrerem por conta da inc-
ria governamental. Morro tambm por causa disto. Morremos
todos, por isso. Sei bem o que querem dizer tantos mortos vivos.
Sei que quero gritar com eles: estamos vivos. Afinal, que Aids 
esta que adoece este (qual?) pas? 



                               3

    Anunciaram a minha morte, nomeando-a com uma sigla de
quatro letras que no so as da palavra amor. So as letras da
palavra dias: estes, que vivemos, ou aos quais sobrevivemos. No
quero esses dias, no aceito essa morte anunciada. Aids  s uma
doena desses nossos dias, uma qualquer, no aceito que faam
dela sinnimo do ltimo dia. Ela nada mais significa seno uma
infeco por um vrus que causa uma epidemia que vamos ven-
cer. Com todas as letras do amor: s-o-l-i-d-a-r-i-e-d-a-d-e.
    Os dias ferem, o ltimo mata - adverte um velho provrbio.
Por isto, no sou sobrevivente. Costumam falar que o doente de

23


Aids  um terminal e que tem uma curta sobrevida. Se sou
terminal  como um rodovirio, cheio de chegadas promissoras e
partidas para as mais formidveis e apaixonadas estradas dos
viventes. No tenho sobrevida; tenho uma vida de sobra, a nica
da qual poderei deixar o rastro de uma paixo que sempre moveu
em mim alguma coisa imvel que se enraizou no fundo de um
lugar que eu costumava chamar de peito, mas que sei que fica
alm de qualquer corao. O corpo afinal so desrgos. A Aids,
pobrezinha,  meramente uma afetao de rgos. Desejos so
desordens orgnicas. No ser a Aids que me trar a inapetncia.
Apenasmente me situa, como exploso de uma verdade corporal,
na impermanncia. Algo que sempre vivi mas no sentia.
    Que me firam os dias, todos antes do ltimo, firam-me como
se diz de um dedo que fere a corda de um violo no corpo de baile.
    Ali onde explode uma verdade  que a paixo comanda.
Tenho a certeza que a maioria dos doentes de Aids passam a viver
apaixonadamente, desde que sabem que esto doentes. Muito
ingenuamente muitos crem que esta paixo decorre da exploso
da verdade da morte. Como se o que sobrasse ao doente fosse o
ltimo cigarro antes da queda da lmina, antes do tiro de miseri-
crdia. A morte no  uma verdade. A morte  nada. A verdade
que rebenta, nesta curiosa descoberta da nossa mortalidade, des-
coberta ftil e bvia (mas o bvio  obscuro neste mundo de
alienaes), a verdade que eclode  a significncia da vida. Antes
da morte.




                            4


    Um dos primeiros logotipos criados para campanhas sobre
Aids foi o da OMS, onde se vem dois romnticos coraes
vermelhos entrelaados; no entrecruzamento dos dois coraes
desenha-se uma lamentvel caveira. O artista, sem querer discutir
a qualidade de sua inspirao, tentou resumir um dos mais
precoces e conhecidos lugares-comuns sobre a Aids, qual seja, o
de que ela associa, no mundo moderno, sexo e morte. Ao invs,
no entanto, de produzir uma imagem de um novo fenmeno
social que  a epidemia provocada pelo HIV, criou um smbolo
dos mais graves preconceitos gerados pela Aids: a contagiosidade
decorrente do contato amoroso, a incurabilidade e a mortalidade
da doena. 
    Essa definio mnima e operacional da AIDS foi o fantasma
preferido dos anos 80 e provavelmente tem flego para assombrar
ainda por muitos e muitos anos. Contra essa simplificao, de

24

amplos efeitos sociais,  preciso um esforo de educao e infor-
mao, onde no pode faltar a voz dos doentes e dos
soropositivos. Isto porque estes tm uma experincia vital que
contraria de forma contundente a "definio mnima" e se choca
contra velhos preconceitos e novas discriminaes.
     por causa disto que falo da minha doena. Como um esforo
para desmistificar uma doena terrvel que  uma ameaa  sade
pblica mundial. E tambm minha contribuio para o trabalho
de divulgar informaes corretas sobre a doena.
    Sub-repticiamente, a doena criou uma mitologia to comple-
xa que o doente passou a ser visto como um ser especial, um
"aidtico". De tal maneira que muitos me comunicam que eu
"assumi" minha Aids. Eu acho engraado, isto de assumir -esse
ato de vontade que implica admitir a existncia de certa coisa. De
fato, o que tenho feito  assomar  porta do mundo e dizer: estou
vivo,  tudo mentira o que dizem por a, que morri.
    Na verdade, o doente de Aids tem de aparecer para desfazer
os equvocos criados por uma ideologia corrosiva de condenao
e conseqente apiedamento que constri um melodrama ali onde
se desenrola uma tragdia. Inegavelmente, a Aids  uma tragdia
moderna. Ela desmonta, de forma aguda, os pressupostos mdi-
cos e morais da racionalidade burguesa. Lembra que a dor, o
sofrimento e a morte so partes integrantes do mundo, assim 
como o prazer - e no h prazer que sobreviva longe da sombra
da dor.
    O mundo do melodrama, que apaga o conflito da tragdia
para instituir um falso igualitarismo diante da morte, s pode
oferecer conselho, consolo ou consumos. O conselho de uma
pacificao pela passividade diante da morte; o consolo de um
perdo, s possvel se o pecador reconhecer a culpa; o consumo
de terapias aliviadoras que rendem dividendos robustos aos la-
boratrios e outros tipos de charlates. J que o morto -antes de
tudo um morto civil - est fora do mundo produtivo, pelo menos
no  deixado fora do lucro.


                         

                              5


    Vivi clandestino durante anos, no Brasil, enquanto lutava
contra a ditadura. Naquela poca, tambm vivia clandestinamen-
te minha sexualidade. Foram duros tempos. Por lutar pela
liberdade, eu era perseguido pelas foras policialescas. Nesta luta
eu achava que havia uma incompatibilidade entre ser guerri-
lheiro e homossexual. Foi depois disto que aprendi que no se luta

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por meia liberdade. Que no h liberdade sem liberdade sexual.
H muitos anos entendi que viver transparentemente minha
sexualidade significava exigir cidadania para todos, no apenas
para aqueles que so ou no ditos homossexuais.
    At hoje, mesmo nas cidades maiores, nos crculos mais libe-
rais, a homossexualidade  vivida se no em completa clandesti-
nidade, pelo menos semi-clandestinamente. Com a Aids revelou-
se o aspecto mais trgico dessa situao de vida na sombra. Para
muitos, o pior no  a doena;  a necessidade de se revelar
homossexual. De um modo pattico, o doente de Aids  obrigado
a revelar a forma de sua contaminao. E a transformao do
diagnstico numa denncia. Mesmo o doente que no se conta-
mina por via sexual v-se constrangido a se "diferenciar", a
insistir permanentemente para que no o confundam com aque-
les que tm... a mesma doena que os atinge!
    Tenho conhecido muitos doentes. Homossexuais ou no, o
maior sofrimento porque passam  o que decorre do preconceito.
 no poder ser apenas um doente,  ter que ser estigmatizado,
um "aidtico".  o medo das, muito freqentemente, invisveis
presses sociais (o pior preconceito nem sempre  a discriminao
direta).  o pnico de no poder ter mais vida sexual e afetiva. E
a constante presena de pessoas que parecem estar segurando a
ala do seu caixo. E a invisvel rede de opresses criadas pelo
crculo familiar, s vezes por mdicos, padres, at amigos.
    Diante disso, a opo mais freqente  a clandestinizao, um
modo de fugir para morrer, j que a morte  a nica forma de vida
que a sociedade parece oferecer ao doente. A questo no ,
nunca, oferecer melhores circunstncias para o doente morrer em
paz. E encontrar para eles as melhores condies de vida. A
clandestinidade  o reconhecimento da impossibilidade que a
sociedade tem de viver a doena. E um atestado de falncia.
    Doentes clandestinos so muitos no Brasil. Desde os que mor-
rem ignorando sua doena, aos que so mortos por discrimina-
es. Doentes annimos servem para no perturbar a marcha
cruel de uma espoliao de cidadania que atinge a todos ns.
    Para satisfazer essa espoliao, que passa pela morbidez de
uma curiosidade tortuosa, o doente de Aids  mostrado na som-
bra, em contra-luz, principalmente na TV. Este no  um modo
de preservar a privacidade do doente - direito, alis, essencial.
E o modo de escrever um destino sem pessoalidade. Um modo
de remexer na regio em que todos vivemos, sem saber, na
escurido da falta de direitos civis.
    O doente de Aids toma-se um ser sem nome e sem histria. 
preciso tir-lo da escurido da clandestinidade para que possam

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dizer em plena luz: "este  o meu nome, esta  a minha histria".
Muito menos do que "assumir" um ser ou um "estado", essa
ao ser uma forma coletiva de escrever, de forma mais demo-
crtica, nossa histria.




                               6


    Nada mudou na impermanncia. Sic transit. A experincia da
finitude povoa os recalques de todos os mortais. Saber-se finito
no  exatamente uma novidade. Acreditar na mortalidade do
corpo  que  mais difcil. Este  um aprendizado que a doena
traz e, parece-me, nenhuma crena na imortalidade da alma traz
alivio para o barro que descobre seu destino de p.
    Certamente, a doena faz a gente descobrir-se alguma coisa
fragilmente outra. Com uma certeza ancorada no mar mais nfi-
mo: a vida continua. Quer dizer, a vida continua agora. No h
morte antes da morte. Por mais que faam para preparar nosso
enterro, por mais condenaes que nos repitam nas propagandas
oficiais.
    H muito o que falar dessa morte antes da morte chamada
"Aids", segundo as definies mais preconceituosas e discrimi-
natrias. Exatamente para dar um grito de viva a vida. Viva a
vida!
    Tenho falado em vida, sem parar. Com um infundado otimis-
mo. Afinal, diz meu bem fundado pessimismo, a vida no presta,
no tem prestado. E difcil imaginar que valha a pena um dia, sem
terror atmico, sem explorao de classe, sem assassinato de
florestas, rios e homens, sem medo, sem culpa, sem vergonha,
sem-vergonhamente apenas vida. Mas no h outra maneira de
gozar; ento,  preciso no apenas suportar,  preciso sustentar a
vida. E fazer dela um hino, um tino, um sino de chamada. Ms
metforas. Mas a vida  uma pssima metfora, tambm. A
pssima metfora da sobrevivncia apesar de tudo. No entanto,
sempre acreditei, mesmo quando vacilava, que a vida  a inven-
o da vida. Pura criao do mundo dos humanos: viver  no s
transformar o mundo;  cri-lo mais belo. No temos acertado
muito nessa inveno. Acho, porm, que um dia se acertar, quem
sabe? 
    Um dia, um dia... Quer dizer: outro dia. Um novo.
    A gente passa e fica um pouco. Deixa cinzas, pegadas. Nem
sempre memorveis. Seria melhor deixar apenas o que gostari-
mos de ter feito conosco.

27

    No entanto, somos o que foi feito com ns mesmos. Somos isto
de quem somos feitos, esta matria de tempo. Muitas revolues
podem amadurecer, no entanto, nessa nossa carne de passagem.
    Meu tempo, minha substncia, esta coisa que temos sido, eu e
quem diz eu, no tem sido o que eu queria chamar de vida. Mas
tanto me tenta que acontece como gozo precoce, incurvel. Uma
coisa dentro de mim contagiosa e mortal; perigosssima, chamada
vida, lateja como desafio.
    Mudar, remodelar - um desses verbos ou seus sinnimos, um
deles sempre esteve remexendo dentro de mim, uma coisa voraz
que me corroia. Isto era esperana. A esperana. Este que sempre
tive, pluralmente: gente, a gente, agentes dos caos da luz.

28

                           




                      

     
                           posfcio


 
                    ESTAMOS BEM, OBRIGADO.
                        S TEMOS AIDS


                                   Cludio Mesquita


    Um dia, em menos de quarenta segundos, ela desabou sobre
ns. No que no fosse esperada, ou melhor, temida: h trs anos,
ela  assunto dirio dos nossos quase todos momentos. No entan-
to... At que acontea, cada um de ns reveste-se um pouco com
a fantasia da exceo, comas borrachas lubrificadas do "em mim,
no, violo". 
    E ento chegou. E trouxe com ela a certeza da mortalidade,
que fazemos questo de esquecer, para achar que a vida  bela.
Todos ns morremos pouco a pouco desde que nascemos; mas a
certeza da morte  fato que precisamos esquecer: gostamos de nos
sentir individualmente imortais.
    Pode parecer estranho que eu esteja falando no plural, como
se se tratasse de uma doena coletiva que desabou sobre a nossa
casa. Mas foi, de fato, o que aconteceu. Somos dois, h mais de
dezoito anos. E somos assim em tudo que fazemos; no seria
diferente diante da Aids. E certamente no ser diferente diante
da morte. Estamos casados. No um desses casamentos que se
forjam na papelada burocrtica dos cartrios ou se fundam ape-
nas na efmera aventura sexual. Estamos casados em cada
segundo da vida. Naquilo que fazemos juntos, pensamos juntos,
criamos juntos, planejamos juntos - temos em comum presente,
passado e futuro. Sim, futuro, por que no?
    Herbert, meu companheiro de vida, est com Aids. E o fato de
nenhum sintoma ou presena do vrus ter aparecido em mim no
me deixa menos doente do que ele. Adoecemos juntos, sofremos
juntos, enfrentamos cada crise provocada pelo vrus e, sem dvi-
da, enfrentaremos a morte juntos. E mesmo que um de ns

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permanea depois do outro, j estar um pouco mais morto, pois
estar s. 
    Nesses trs anos em que a Aids foi tema central de quase todas
as nossas conversas e razo do nosso trabalho, duas coisas nos
pareciam evidentes, em relao aos que adoeciam: s a solidarie-
dade pode servir de alento. S a idia de que se est ao vivo
quanto antes pode dar foras para enfrentar as doenas oportu-
nistas e super-las uma a uma.
    O acontecimento da Aids em ns confirmou essas certezas.
No bastam tratamentos mdicos adequados - ainda que sejam
fundamentais.  preciso dividir com os que se ama os medos, as
esperanas, o gozo de cada melhora, os sentimentos em relao 
vida e  morte. Enfim,  preciso, mais do que nunca, continuar
partilhando a vida. No h pior mal (e esta  a verdadeira praga)
do que a clandestinidade e a solido que ela traz.
    Por outro lado, vimos que, de fato, o processo de tratamento
da Aids no se assemelha em nada a uma lenta desintegrao
fsica, como nos quer fazer crer toda uma "campanha de esclare-
cimento" oficial. No h, desde o contgio, um processo agnico
ininterrupto, cujo desfecho  a morte. O que h so algumas
doenas oportunistas de maior ou menor gravidade, que no
acontecem necessariamente em seqncia, nem prximas umas
das outras. O doente  apenas uma pessoa mais fragilizada, que
deve ter certos cuidados. Mas quantas pessoas no so assim
desde que nascem, e vivem com este fato at a velhice? Portanto,
o doente de Aids no  um moribundo, e nem um invlido. E s 
uma pessoa com uma doena (muito seria, sim) como qualquer
outra doena- precisa de cuidados -e, sobretudo, precisa saber
que est vivo e deve continuar a pensar, planejar, criar, se divertir
e trabalhar.
    Sim, ns estamos com Aids, aqui em casa. Fato triste, como 
triste qualquer mal que no tenha resposta da sociedade. Se nos
livrarmos da culpa que no temos, se nos livrarmos da "agonia 
degenerativa" que no vemos, se nos livrarmos da "solido clan-
destina que no devemos" - seremos apenas pessoas como
sempre, que j viveram algumas doenas e, com certeza, ainda
vivero outras, at que morram de uma delas... Como todo mun-
do, alis.

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