


        EDITORA PAZ E TERRA S/A
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        1986
        Impresso no Brasil 
        Printed in Brazil





             DESVIOS 5


   Maro de 1986


    NDICE


5     Apresentao

7     A voz das urnas /
      Os ltimos dias da neue republik / Dcio Pinto

31    As novas alianas: movimentos sociais & movimentos
      alternativos / Um debate com Felix Guattari
45    De Nairobi a Bertioga: viagens aos confins dos
      feminismos / Elisabeth Souza Lobo


      DOSSI: LUTAS NO CAMPO


52    A reforma agrria ventrloca / Paulo Sandroni

55    Brasil; muda prra / Murilo Pinto da Silva

63    Violncia e esperana no bico do papagaio / Maria
      Regina Sader

70    A questo sindical no IV Congresso / Jos dos
      Reis Santos Filho / Leonilde Srvulo Medeiros

86    Roque Santeiro: dos negcios do lar aos do Estado
      sem sair do sof / Norberto Abreu e Silva Neto /
      Ruben Affonso Beltro Jnior

97    Trottoir: a territorialidade itinerante / Nstor Perlongher


107   A sndrome dos nossos dias / Herbert Daniel


115   Mengele; o exterminador do futuro / Renata Tannembaum

120   Um salto no escuro / Roberto Perosa

123   O currculo  maior que o... / Norberto Abreu e
      silva Neto

126   A experincia da autonomia operria na Itlia /
      Entrevista com Massimo Canevacci





                A Sndrome

             dos nossos dias

           

              Herbert Daniel




      No h pior inimigo do medo do que o pnico,
      Digo isso no para fazer baixa filosofia,
mas por experincia pessoal, inclusive porque a
baixaria  uma filosofia em expanso, e eu tive
pela vida afora excelentes relaes pessoais com o
medo.
      Chamo medo aquilo que te deixa sempre com
pelo menos dois olhos entrefechados, vigiando o
perigo antagonista e te d a astcia da saudvel
covardia, dita prudncia, ou do herosmo comedi-
do, dito estratagema. Agora, por outro lado, o p-
nico  abertamente o adesismo fisiolgico ao ini-
migo, porque ele te magnetiza e te leva com todos
os olhos sem proteo para cima do ferro do de-
sespero.

      Nos dias de hoje, no apogeu de
uma civilizao que se funda no equil-
brio pelo terror, temos de saber cami-
nhar no cotidiano na frgil fronteira
entre medo e pnico, pois o mobilirio
do nosso dia-a-dia  de tal modo agres-
sivo que estamos constantemente sub-
metidos ao risco de tropear no tapete
do atmico, de esbarrar na quina de
uma epidemia fatal, de dar uma topada
nos ps frgeis das cristaleiras da vio-
lncia. A civilizao no provoca ape-
nas um mal-estar, mas uma sndrome de
dores e febres em que acontece de tudo
e sempre demais: um  terremoto, uma
guerra, um genocdio, um acidente eco-
lgico. . . Catstrofes! Lentamente,
aprendemos que a maior catstrofe na-
tural decorre sempre de uma outra na-
tureza do que a fsica do verde meio:
 a inteira dialtica da fraturada socie-
dade. A natureza das catstrofes, basta
ver com cuidado, decorre da naturali-
dade da classe dominante.
      Uma constatao banal? Sim, por-
que foi assim que se vulgarizou uma
crise civilizatria - que faz do exter-
minismo uma lgica prpria - que mo-
biliou nosso cotidiano. O horror  ba-
nal. O equilbrio entre meio e pnico 
a sndrome dos nossos dias.
      E, se repararmos com cuidado,
dias  um anagrama de AIDS (ou SI-
DA). E eu estava falando disso tudo
exatamente a propsito da aquisio de
uma deficincia de proteo contra o
banal do terror.



          Dias que ferem

      A inscrio, em latim, est no re-
lgio da Igreja de So Francisco na
Bahia: "cada dia fere, o ltimo mata".
 tambm uma advertncia banal aos
passantes, sobre a inexorabilidade do
tempo que passa, sobre a inevitabilidade
da finitude. Como, porm, tolerar a
existncia da morte, esta coisa indizvel,
improdutiva e mgica, num mundo que
se funda na racionalidade de corpos
sos, ativos, produtivos e reprodutivos,
dentro de um sistema cujo objetivo  a
eficincia e a rentabilidade?
      Afastando a morte, como se fosse
uma "doena" curvel. A medicina ele-
geu o corpo como sede da eternidade.
A morte  um desvio intolervel, que
no deve ser vivida como tal, mas opos-
ta  retido da vida rentvel.
      A medicalizao da morte  uma
resposta tecnocrtica a tabus ancestrais
e faz parte de uma vasta estratgia da
medicalizao do fenmeno humano. O
corpo  um espao poltico, sua medi-
calizao  uma forma de seqestro de
direitos democrticos. Uma perda da
autonomia, numa luta em que est em
jogo no apenas alguns "malvados" tc-
nicos com seus tubos e estetoscpios
contra "bondosos" medicalizados, mas
toda uma trama complexa de poderes
que compe as cumplicidades e as di-
vergncias do cotidiano, uma rede de
aes que determinam a conformao
dos nossos espaos humanos: corpo e
meio ambiente.
      Dentro desse espao humano, des-
se universo de mltiplas dimenses,
territorializado segundo tabus e estig-
mas, aparece o grande "monstro" da
AIDS/SIDA, que consegue - como se
fosse encomendado - misturar numa
s sigla misteriosa ingredientes fants-
ticos: sexo e morte. Acontece ento o
inevitvel: a gigantesca curiosidade da
populao a respeito desse amlgama de
coisas indizveis, e a tentativa frustrada
de "informar" sobre o que haveria de
oculto por trs da sigla.
       preciso inicialmente, portanto,
escapar de uma armadilha: no h uma
resposta mdica  questo que  calo-
cada pela curiosidade a respeito da
AIDS.  preciso separar as questes: a
AIDS  uma patologia e como tal pode
ser descrita; ela apresenta desafios im-
portantes  comunidade e  cincia; mas
a descoberta da etiologia e cura da
AIDS no so respostas s questes ge-
rais que fazem da AIDS um "tema dos
nossos dias", uma "razo de pni-
co", etc.
      A AIDS, como qualquer "doena",
deve ser colocada no lugar dela: como
uma doena. Sem fazer da sigla mais
do que ela : uma doena grave, peri-
gosa e mortal, que carrega consigo toda
uma carga de preconceitos bem carac-
tersticos dos nossos dias.
Muito alm da discusso da "doen-
a", tudo deveria passar por uma outra
discusso - poltica! - sobre a sade,
como autonomia de uma dada comuni-
dade de administrar seus corpos e seu
meio, ou seja, os terrenos de construir
sua prpria histria.
       preciso entender como dor, doen-
a e morte so tratadas dentro de uma
sociedade autoritria para a produo
de uma certa domesticao dos corpos.
Ou seja, como tudo isto entra para or-
ganizar um cotidiano onde cada dia fere
de modo suicida. E como, na luta pela
autonomia,  possvel reorganizar o
cotidiano de tal modo que cada dia
ferisse o corpo no sentido em que se
diz que o dedo fere a corda de um vio-
lo. E cada ferimento de um dia, onde
se vive uma morte inevitvel mas no
destruidora, soasse como a nota de uma
melodia a ser acompanhada por um
corpo capaz de ser o corpo de baile de
uma busca sem finitude: o ritmo da li-
berdade.




       Os nomes de Sodoma


      O grande pecado de Sodoma, ci-
dade de vcios perigosos, no seria, para
um hebreu, fundamentalmente o con-
denvel ato da relao anal, mas prin-
cipalmente a muito mais condenvel
afronta s leis da hospitalidade. A falta
de solidariedade com o estrangeiro con-
denou Sodoma  destruio. Mas os
costumes mudam. E com eles a impor-
tncia relativa das relaes com os ori-
fcios e pingentes do corpo.
      Quando apareceu, na medicina,
uma novidade mrbida, no incio dos
anos 80, uma de suas caractersticas ser-
viu de brilhante chamariz: na imensa
maioria, os atingidos pela entidade pa-
tolgica eram homossexuais. Alm deles
vinham heroinmanos, haitianos e he-
moflicos... Muitos ags (letra muda
do horror do preconceito e que no ca-
be em hamor), muitas fascinaes mr-
bidas.
      Assim que foi descoberta, a doena
(ou doenas) tambm recebeu o lcido
ttulo de GRID (Gay Related Immune
Deficiency). Grid  grade ou grelha,
mas no deve ser traduzida assim. Nem
como "deficincia imunolgica relacio-
nada com a Alegria". De qualquer for-
ma, a medicina acabou introduzindo na
sua linguagem a alegria como um troo
mrbido. E no estou brincando com
palavras. A designao GRID, apenas
transitria, foi logo substituda por
AIDS - que no deve ser traduzida
por ajudas. Mas  notvel observar que
o termo Gay, internacionalizado pelos
homossexuais que assim se autodenomi-
naram, passou a freqentar os textos
mdicos mais sbrios como sinnimo da
palavra homossexual, de formao
exclusivamente mdica.
      Percebam que nesse jogo de pala-
vras h um enredo que reflete uma
evoluo social da chamada "homosse-
xualidade". Uma trama (grid) que su-
gere um caminho que vai do enreda-
mento ao cuidado: uma histria de bi-
cho(a) preso e tratado no zoo higinico.
Ou um quadriculado (grid) que permite
um mapeamento (territorializao) de
Sodoma, de tal forma que o lugar do
erro e do pecado e do mal seja higieni-
zado, tratado, curado, ajudado a salvar-
se (aids). Continuando a fico: em por-
tugus, Sida pode soar como apelido de
uma (t boa) santa finalmente surgida
das guas escuras. Ou como um sufixo
homicida que indica o que fere, ou ma-
ta...
      Muito antes que fosse descoberto o
que seria o agente etiolgico da
doena, as relaes entre homossexuali-
dade e a nova patologia foram ampla-
mente discutidas. Muitos afirmaram que
havia no "homossexual" uma predispo-
sio gentica. Outros colocavam a
questo assim: no se sabe se a doena
 intrinsecamente homossexual ou ape-
nas acidentalmente homossexual. Hoje,
a questo continua sendo debatida, mes-
mo sabendo-se que a doena  uma in-
feco virtica. Atribuiu-se ao homosse-
xual uma "responsabilidade" qualquer
pela doena. Do doente que era (afinal
a medicina deixou de considerar a ho-
mossexualidade uma doena h pouco
tempo), agora o homossexual  sujeito
a patologias prprias. Estamos assistin-
ao nascimento de um novo ramo da
especializao mdica: a Gayiatria. . .
      Se houve um avano do preconcei-
to contra os homossexuais, por outro
lado, "uma certa autoproteo mecnica
dos ofendidos levava a outra atitude
mais ou menos incoerente: a recusa dos
fatos. Muitos, procurando defender a
comunidade homossexual, simplesmen-
te negavam a existncia do perigo ou
fantasiavam sobre causas conspirativas
do "cncer gay" (teria sido a CIA?...).
Entre o sensacionalismo - da impren-
sa - que insuflava o pnico (forma
obscurantista do exerccio da liberdade
de imprensa nas nossas sanitrias socie-
dades democrticas) e o equvoco de
supor aes criminais dos homfobos a
perda de tempo s servia para desinfor-
mar todos e adoecer muitos. .. " (Escre-
vi isto em 1983 em jacars e Lobiso-
mens, Achiam, 1983).
       preciso acentuar o papel da ma-
ninulao ideolgica de fatos e saberes
MDICOS na formao do preconceito
contra as homossexualidades. Agora,
quando j est claro (aquilo que era,
no mnimo, bvio) que o vrus no tem
sensibilidade poltica para optar por
certos eleitos ou en-viados, continua
uma campanha contra todos os perigo-
sos des-viados, os chafurdeiros da licen-
ciosidade. . . O preconceito se democra-
tiza! O cardeal-arcebispo do Rio  exem-
plar, nesta situao.

        


        D. Eugnio Sales
           com AIDS!


      A mistura de D. Eugnio Sales com
AIDS  explosiva, como demonstra o
candente artigo que publicou o primeiro
(j que a segunda  analfabeta) nos
nossos vibrantes rgos dirios (JB e
Globo, 27/7/85).
      Diz o preclaro autor que a propa-
gao da AIDS "est intimamente rela-
cionada  infrao da Moral crist",
sendo esta, at agora, a mais estonteante
descoberta mdica a respeito da etiolo-
gia da doena.
      Enumera o venerando escritor os
perigos maiores: a - homossexualismo
("doena ou desvio voluntrio" que
"busca reivindicar foros de normalida-
de"); b - promiscuidade pela troca de
parceiros ("diga-se infidelidade conju-
gal", conclui, numa dialtica to ousada
que se me escapa a mim, mero mortal) ;
c - a liberdade sexual.
      Continua condenando os "falsos
pastores que arrastam ao abismo seu re-
banho", entre os quais "preferiu-se o
combate s injustias feitas ao homem,
antes das que so irrogadas ao criador".
      Naturalmente, todos sabem que fi-
car pelado fazendo sacanagem  o gran-
de problema do mundo, enquanto essas
mesquinharias de fome, misria, explo-
rao e todo esse papo antigo so firu-
las. Morrer de esquistossomose, lepra ou
malria segue a lei de Deus. Morrer
da AIDS j  castigo. Cuique suum, co-
mo se diz, no para falar do que tem
a ver com as calas, mas para dizer que
cada um recebe o que lhe cabe.
      Como muitos, o cardeal-arcebispo
demonstra uma enorme admirao pela
doena, da qual fala com excessos de
satisfao. Segundo ele, ela vem ao mun-
do para punir os pecadores, atividade
na qual fracassou o inferno, que se tor-
nou, como  de conhecimento pblico,
o lugar preferido das boas intenes.
No se pode acusar D. Eugnio de boas
intenes que o levariam  perdio.
Oh, no? Suas intenes so o oposto
daquelas. Os cultivadores do pnico
querem acabar com o Mal e por isso
apreciam a AIDS que, segundo eles,
comprova o Bem.



       AIDS: modo de usar


      Esqueci de dizer acima que o car-
deal aproveitava a deixa para condenar
o aborto, dizendo que tentaram (as for-
as do Mal) aprovar uma lei, no Rio,
que "legalizava o aborto". No posso
dizer que D. Eugnio mentiu. Acredito,
porm, que se equivoca. O projeto de
lei apresentado pela deputada Lcia
Arruda (PT-RJ) apenas regulamentava o
atendimento mdico s mulheres nos
casos de aborto previsto pelo Cdigo
Penal, e que so atendidas nos servios
pblicos de sade de forma precria e
humilhante. O projeto de lei foi aprova-
do pela Assemblia e posteriormente
vetado pelo governador devido s pres-
ses do cardeal. Que alis est cheio de
razo de misturar essas questes dentro
do caso da AIDS. De incio, a gente
pensa que  um treco meio alucinado
falar de uma coisa a propsito da outra.
Mas, se a gente pensa bem, tem tudo a
ver uma coisa com a outra... Afinal,
tudo diz respeito  liberdade de dispor
do prprio corpo e de como se emprega
a AIDS para curar esse sonho mau.
      Como se v, a AIDS tem mil e uma
utilidades. Seu emprego  flexvel e de-
fine a "doena" como parte de uma
guerra ideolgica duradoura.
      Na clamorosa insistncia dos meios
de comunicao em "informar" TUDO
sobre a AIDS reconhecemos, na infini-
dade dos contedos das informaes, um
ponto comum que  a colocao da
AIDS como aparelho para diferentes
estratgias ideolgicas. Nem  preciso
falar da importncia da discusso dessas
estratgias. Mas seria uma ingenuidade
supor que a luta toda seja um avano
da "represso" contra a "revoluo se-
xual", uma espcie de faroeste mani-
questa, verso grotesca de "os brutos
tambm amam", que alis era um filme
avesso ao maniquesmo e muito mais
prximo dessa luta sem lados ou blocos
que  o dia-a-dia do amor dos brutos
que somos.
      A idia mais primria - donde
surgem equvocos lamentveis -  que
a represso moralista vai "perseguir" e
"massacrar" os homossexuais e os des-
viantes. No  impossvel, nem absurdo
que uma tal guerra se d. Mas no ser
sob a forma de agresses apenas, como
quer D. Eugnio. Ou sob a forma de
extermnio nazista, ou stalinista, no uni-
verso concentracionrio, embora no
poucos falem em "quarentena", como
Paulo Francis: depois de definir a AIDS
como uma doena que  "evitvel, em
grande parte" pois "ataca em geral os
praticantes promscuos do sexo anal",
diz que " inconcebvel que portadores
de outras doenas igualmente infeccio-
sas ainda estivessem defendendo como
'direito de expresso' a continuidade de
casas pblicas, tais como banhos turcos
e limitares, em que esse sexo anal e
promscuo  praticado. J estariam em
quarentena" (Folha de So Paulo,
3/11/85).
      Reparem que o raciocnio de Fran-
cis parte de uma definio estritamente
medicalizada da AIDS (e uma definio
altalmente discutvel) e conclui pela
"quarentena", forma suave de pregar a
discriminao, o isolamento, o gueto.
Nisto no est sozinho. Do lado dos
prprios homossexuais vamos encontrar
os que defendem o "isolamento" como
"conquista de espaos livres" pela "co-
munidade gay". . .
      A verdadeira represso, o grande
perigo da utilizao da AIDS numa
guerra de extermnio,  a organizao e
higienizao do "espao homossexual"
nas cidades e nos corpos. Pouco adianta
condenar a campanha moralista que usa
a AIDS como cavalo de batalha, como
se essa colocasse em risco os "espaos
orgisticos da comunidade gay". O risco
 muito maior:  mais provvel que a
tendncia seja "higienizar" o gueto, "ur-
baniz-lo", torn-lo de fato um gueto.
De tal forma que o "lugar homossexual"
torne-se estritamente circundado, fecha-
do e sanitariamente vigiado. O "homos-
sexual" passaria, "limpamente", a ser
admitido como habitante da cidade do
sculo XX, mas apenas habitante, pois
seria cidado apenas no seu gueto, seu
asilo, seu "domstico", seu "lar". ..
      A luta contra a desagregao da
famlia higinica passa no pela impos-
svel amputao da "homossexualidade"
mas, ao contrrio, pela construo do
"homossexual" como ente e figura esta-
tutria, bem definido no seu territrio
dentro do corpo e dentro da comuni-
dade.
      O problema em questo no diz
respeito nem  epidemia de AIDS, nem
a uma suposta "continuidade gay": est
em questo a prpria cidadania, como
um todo. O avano da sexocracia e da
tanatocracia se imiscui na experincia
corporal de uma atividade regular dos
cidados, toma-a objeto de diagnstico
(homo ou heterossexualidade), e serve
exclusivamente no avano de uma do-
mesticao que  a socializao da so-
lido. 
      E como o corpo - que responde
s agresses do meio com a mesma ba-
teria de recursos, sem distinguir uma
facada de uma inciso cirrgica - no
 poliglota, tambm a solido no  po-
liglota: no existe como homo ou hete-
rossolido.




        Horror AIDS Again

      Eu tenho medo da AIDS. Ele 
uma necessidade natural, j que se tra-
ta de um perigo que no  sobrenatural.
Eu tenho horror do pnico que es-
to criando em torno da AIDS.  uma
falta intencional de socorro a pessoas
em perigo de vida. Tem muita gente
trabalhando para semear o pnico, com
o empenho do semeador legendrio que
luta contra as intempries usando at
agrotxicos.
      Quanto a mim, no gosto nada da
AIDS, entre outras razes porque no
vejo razes para se defender a AIDS
contra o sexo.
      Para os industriais do pnico o
sexo  responsvel pela AIDS, quando
deixa de ser responsvel pela culpa e
pelo respeito s autoridades. Eu acho
que, ao contrrio, o sexo s  respons-
vel pela culpa e pela submisso quando
 outra coisa e no apenas um meca-
nismo para que as pessoas fiquem jun-
tas, felizes e em aberta e franca diver-
gncia. Inclusive, sem este sexo no
haveria nem ajuntamento das divergn-
cias, nem felicidade, nem mesmo pes-
soas.

      A AIDS  apenas um vrus, sem
nenhuma moral humana, tal como a
gripe. Nunca ningum pensou em res-
ponsabilizar o aparelho respiratrio pela
gripe ou acusar a respirao de ativi-
dade capaz de pegar a espanhola, a tu-
berculose e outro monte de bagulhos
nojentos, devendo por isso as pessoas
pararem de respirar para evitar essas
infeces hospitalares.  pssimo para
a vida, a ausncia da respirao. Agora,
se aparece um monte de gente pondo
culpa na respirao, todos vo ficar
muito culpabilizados, e  o pnico. Vai
ter at quem respire apenas na intimi-
dade, com todos os preservativos sani-
trios. Como no pode ser assim, o que
fazer para evitar todas as agresses ar-
madas  respirao? Respirar com sa-
tisfao, mas cuidadosamente. Isto ,
com medo, parente prximo das tcni-
cas orientais de autodefesa, enquanto o
pnico  um grande filho da culpa.
      O Pnico resulta da competncia
dos especialistas da culpa e da impo-
tncia, sbios que transmitem slidos
conhecimentos de desinformao. Sob a
forma de conselhos doces ou de teorias
complexas dos que acham que no pre-
cisam ter medo. Estes se sentem imunes
devido s suas prprias defesas de se-
gurana que lhes vm das privilegiadas
relaes que mantm com o poder divi-
no e o terrestre. Sobretudo com o lti-
mo. So os que fizeram a opo prefe-
rencial pelo pnico.
      Sinceramente, eu prefiro a pobreza
do medo. Do medo simples, cordial, fa-
cultativo, que me permita entender,
mesmo quando no haja motivo para
compreenso. S no digo que morro
de medo da AIDS porque estaria fazen-
do hoje o que ela poder fazer amanh.
Reafirmo que, para matar, o pnico da
AIDS  o campeo do mundo em ma-
tria de guerra ideolgica. O pnico da
AIDS vai acabar matando mais gente
do que a prpria, porque esta pode cau-
sar baixas importantes, mas aquele 
capaz de provocar um genocdio.
      Eu queria falar mais ainda, para
xingar o Pnico e dizer como usei o me-
do favoravelmente para falar da lei do
mais fraco (ou, pomposamente, da re-
sistncia e da solidariedade), mas no
tem mais papel. Depois volto a isso,
porque continuo com medo e sem isto
no d para amar os fracos, coisa obri-
gatria a quase todas as pessoas huma-
nas que tm verdadeiramente auto-esti-
ma.

