



                   H E R B E R T  D A N I E L

                      ANOTAES  MARGEM
                      DO VIVER COM AIDS





                            # fenda

      Estou vivendo com AIOS. Um vrus me habita, um risco me ronda.
Dessas coisas devo falar. No por causa da doena. Nem mesmo
por causa da morte, da qual nunca saberemos nada - e, portan-
to,o nico que resta a fazer  aprender a viv-la; aprender a viv-la, morte!,
 aprender sumariamente. Estou compelido a falar, assim sendo, daquilo
que, em sade ou doena, me toma o plural de uma poca, ou seja, a dita
condio humana. Afinal, a questo  sempre a vida. No oposto do seu
biolgico. 
      Ando em passeio numa fenda estreita. Posso escorregar, resvalar,
passar, cair, no sei bem o que diga, pois no sei que brecha se abre, nem de
onde para onde. Morrer, sim, a fenda pode ser a boca dela, cadela ou
meramente coisa com boca. Sons grotescos. De vez em quando sinto um
arrepio. J sei que no  nada como se eu soubesse que vou morrer (sempre
soube, conclu, atordoado). Isto no altera o nimo de ningum. O que
aprendi  que sou mortal, o que  diferente de intuir que morrerei um dia.
Aprendi fragilidades, magnitudes, arregalamentos e arrepios. Estes tm
sido cada vez mais amigveis. Surgem como uma iluminao na vulgari-
dade do medo cotidiano, ou do sentimento fatalista. No  como estar
fechado num poo sem fundo, numa caixa sem sada.  como estar diante
do destino. Tudo est aberto, mas fechadamente aberto. Inexoravelmente
infinito. A finitude. Rupturas acontecem inesperadamente, quando penso
na dor fsica, por exemplo, ou na necessidade de adiar algum prazer, para
 

4 HERBERT DANIEL


cumprir um qualquer compromisso. A se passa a descarga de adrenalina,
um esclarecimento brutal sobre a mortalidade. Penso que aprendo em cada
descarga um significado da vida. Cada vez menos a vida se parece com o
que eu esperava dela. Cada vez mais me parece uma fonte incansvel de
esperana.

                          # cura e salvao

      Todo tecido de tormentos e convites me envolve num casulo onde sei
localizar o terror ou a nusea. Estar seguro de que estou doente j me faz
imaginar o que seria no ser doente. A doena cria, porm, uma carapaa
que no me d certeza de que, se ela no existisse, eu estaria fazendo uma
coisa que seria mais laboriosa, em matria de vida. Sei que estou fazendo
uma coisa rdua, talvez mais trabalhosa do que viver a prpria doena
enquanto tal, e s isto mesmo. Cheguei  concluso que meu primeiro e
fundamental tratamento  sentir-me cidado da minha poca.
      Pouco me importam, em geral, as tecnicalidades teraputicas, embora
elas sejam significativas. Como cidado avalio, com outros cidados, tcni-
cos mais competentes do que eu (mdicos e profissionais de sade) minhas
trilhas teraputicas. No me jogo, como vejo tantos fazendo, na esperana
falsa e cruel da cura mgica, que leva a se submeter a tratamentos segura-
mente mais consumptivos do que os resultados diretos da prpria doena.
Somos seres curveis. E acreditamos nisto. Ento, na busca de uma cura,
somos capazes de atravessar os mais complicados labirintos, muitas vezes
absolutamente irremissveis.
     Depois de dez anos de epidemia, parece que agora a grande notcia, que
substitui a inicial - e terrorista - que dizia que o mundo ia sucumbir
diante da epidemia de AIDS, a grande noticia  a da CURA. Esperemos
todos. Ela vir. Seguramente, em prximos anos. Lenta, gradual, transfor-
mando a AIDS (a doena) no que ela se toma dia a dia : uma doena crnica,
de longa evoluo, de tratamentos complexos, mltiplos e variados. AIDS
 uma doena tratvel. A epidemia  evitvel. Com a AIDS, em todas as suas
dimenses, podemos VIVER. 
      Mitologia por mitologia, a fantasia de fazer da AIDS a frmula aids =
morte, inventou tambm que a CURA DA AIDS era uma espcie de
SALVAO. No . A AIDS no  uma perdio. Sua cura no  uma
salvao, nem um milagre.  um tratamento. Uma cura.


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      Evolues das supersties, to caras a nosso sculo de desenganos,
envolveram o soropositivo, doente ou no - este eleito pela poca como o
morto preferencial de nossos dias - numa teia assombrosa chamada
ditadura da teraputica. Estar sujeito s regras estritas dessa ditadura
consiste numa espcie de abdicao  cidadania.  um dos avatares da
morte civil. E a morte civil  a pior doena gerada pela epidemia insuflada
pela epidemia do HIV.


                          # aids e AIDS

      
      Cada dia mais tenho certeza da doena, embora ela no se manifeste em
episdios muito espetaculares. Ela est se arrastando lentamente, cozi-
nhando suas bruxarias lentas. Comigo  assim; com outros, no. Cada caso
 um caso. Sei que estou doente, veja este cansao que me consome, como
se fosse uma origem de um vulco que me sugasse para dentro a fora e
soprasse uma nusea sulfurosa permanente. 
      Sei de um meu corpo que muda e desloca. O meu corpo, que afinal no
se alheia.  meu sim, minha praa do prazer, com suas dores, seus limites
novos, seu modus operandi, seu modus vivendi. Afinal,  corpo. E como todo
e qualquer outro, um corpo de baile. No da ltima festa. A primeirssima
dana. Todos os corpos de baile so primeiras atraes. (Minha literatura
teme, s vezes, o desabuso febril com que costumo costurar meus enredos
sobre o meu prprio e o meu prximo mundo: mas desta vez aqui as coisas
sero assim, fluidas, imediatas, porque AO VIVO. Estou ao vivo! Meu dia-
a-dia. Adia que isto ainda  roquenrol.) 
      Tenho tido alguma, pouca e impermanente, necessidade de um afasta-
mento, de um pouco de silncio, para melhor entender minha doena. Acho
que assim no perco no cotidiano a capacidade de ver o pequeno e o terrvel.
Empenho-me em no esquecer de organizar o que maior e mais relvante
 revelador: meu estado de cidado diante do Estado.
      Muitos caminhos esto sendo abertos, se no nos deixamos cegar pela
massa de clichs que a aids gera cotidianamente, a partir de um conven-
cionalismo. Aqui escrevi aids, toda a palavra em minscula.  como me
refiro s complexas construes da epidemia, para diferenciar da AIDS,
uma doena caracterizada pela infeco pelo HIV associada a infeces
oportunistas mais ou menos graves.
      Acontece que foi lanado, h mais ou menos uma dcada, um movi-


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mento perptuo, com fora prpria, movido a estatsticas, "grupos de
risco", adjetivos seguros, "aidticos", "promscuos", "terminais", e anli-
ses frias e tabus quentssimos. Este movimento gera seus frutos como uma
enorme semente totipotente. Tudo  mentira. E no temos tido os instru-
mentos para inventar sementes novas.
      Inventaram AIDS e aids. Palavras terrveis, capazes de, ao serem
pronunciadas no local (do poder) exato, produzirem patologias assombro-
sas.  duro curar-se das palavras. Pronunciada, a palavra gera o efeito.
Desinventar seus efeitos:  hoje talvez a maior funo da educao e da
informao sobre a epidemia do HIV. Reduzir a epidemia ao que ela : uma
doena como todas as outras.
      No entanto, a aids  a sndrome dos nossos dias. Temos que renomear
nossos dias, para evitar inclusive que dias e aids sejam anagramas. Outras
letras, para escrever tempos outros.
      Leio grandes autores para aprender verdades sobre o paraso perdido,
s para saber que o nico paraso real  o que perdemos. Isto significa que
a vida enganou todas as nossas promessas; tudo que deixou em ns de
pegadas e memrias so enganos do desejo, falsificaes do prazer. Ah, o
prazer. Como o personagem do TEMPO PERDIDO, eu gostaria de gozar
indefinidamente, no desistir desse gozo que me faa chegar a encontrar o
Tempo, o Tempo em si, em sua capacidade de ser fluxo, de ser o lado de l
do oposto da cronologia. 
      Nunca perdemos, mas fomos enganados. Os sculos se caracterizam
pelas promessas que destroem. Nosso sculo desmentiu todas as suas
promessas, uma atrs das outras. Somos um sculo de esperanas esfacela-
das, porque composto de vitrais onde lemos esperanas loucas e estilhaa-
das. Nenhuma esperana, no para ns. H esperana para o tempo em que
a desmontagem da alienao seja a condio de trabalho de quem trabalha,
isto , de quem associando a imaginao e a memria pode criar um objeto
que se chama de arte e que  o filho do sonho com a intuio.



                   # aids - a da pronncia imposta


      Reconheci que estava com AIDS num momento de espanto, diante de
um mdico que no estava preparado nem para o seu prprio espanto, nem
para a minha desolao. Depois dos usuais rituais que coagulam a relao
mdico/paciente, aquele silncio demorado em que o doutor d a volta


ANOTAES  MARGEM DO VIVER COM AIDS 7


para trs da mesa, ele fez um ar, uma mscara, uma persona, da boca da qual
iria certamente correr uma verdade. Aquela presumivelmente seria aterra-
dora. Eu sabia, a gente no chega nunca a ser to ignorante de si mesmo,
mesmo que se queira fixar nas iluses mais distantes. Durante um tempo
muito curto, ele me comunicou que eu tinha uma infeco oportunista -
usou estas palavras e no outras, nem uma vez pronunciou a palavra AIDS,
mas falou em pneumocistoses, o que valia para mim como chave do cdigo
- e me enviou para fora do consultrio, para o mundo. Foi a que comecei
a ter aids, mltiplas. Foi um caminho complexo curar-me dessas aids a
adquiridas.
      J contei esta minha experincia, que durou no tempo quarenta segun-
dos. Mas muitas questes circulam aquele momento decisivo de minha
vida. No tenho nenhum rancor, nem mesmo sentimentos de repulsa em
relao quele mdico. Acho que inicialmente fiquei ressentido. Tempo
passado, compreendo melhor, compreendo que as aes daquele mdico
no so erros, ledos enganos, problemas pessoais dele; so formas de
relao estabelecidas no que desenvolvemos como medicina ocidental.
Vale a pena insistir naquela aids de quarenta segundos, pois h o que
desvendar na aids e no tempo que faz dois teros de um minuto.
Uma primeira evidncia do que ocorria situa-se na curiosidade dele
no ter pronunciado a palavra AIDS, nem a sigla indicativa do vrus. Em
suas poucas frases, foi seco, dizendo-se que tinha encontrado, com absoluta
segurana, indcios precisos de Pneumocystis carinii. No tempo em que
ficara recolhido na outra sala, com uma lmina onde recolhera material de
meu escarro, no sem que eu me esforasse para tirar de dentro de mim o
elementar e desvendador catarro. Seu diagnstico foi dado em torno de
alguns fatos inegveis: ele me sabia homossexual, sabia que eu trabalhava
com AIDS, mesmo que fosse pouco informado alguma notcia teria a meu
respeito. O vocabulrio usado para falar comigo foi de quem percebia que
estava conversando com algum que tinha domnio do jargo. Afirmou,
num ntido argumento de autoridade, que estava voltando agora do
estrangeiro onde estudara exatamente as pneumocistoses. Acreditei. No
foi, acho agora, uma confiana absoluta no saber dele, foi uma espcie de
fala de fora de mim mesmo que fechava uma srie de fragmentaes da
minha percepo sobre a doena que me levava ali, febril e desolado. Sem
pronunciar o nome da "doena", usando um circunlquio que se referia a


8 HERBERT DANIEL


uma "outra infeco" que me teria levado  reveladora pnumocistose
pulmonar. Eu sabia do que ele estava falando, como sabia que ele tambm
sabia do que eu sabia. Jogo de empurra. Cavalheirescamente, tervamos
lanas. Conservvamos nossas reas de manobra.
      Imediatamente, pensei que acabara de receber uma espcie de ates-
tado que me dava dois anos de vida. Era o tempo que lia nas estatsticas de
ento, o tempo que me sobrava. Achei incrivelmente pouco, mesmo hoje,
dois anos depois, acho o tempo curto demais. Mesmo se o tempo fosse
maior, no teria sido menor o assombro de uma finitude com data to
prxima no calendrio. Os dias so sempre muito longos, minutos podem
ser parentes fsicos da eternidade, j os anos e os sculos passam com uma
extrema rapidez.
      - Ento, o senhor viu mesmo o Pneumocystis?
      - Vi - me respondeu ele, com o ar bigodudo e irremedivel, tudo dito
com um tom de quem diz todas as frases silentes sobre o irremedivel.
      Acreditei, sim, que ele vira (e, na verdade, no vira!)o agente, aquele,
que conhecia h pouco de textos escritos e que agora escrevia um texto no
meu pulmo fatigado. Por que duvidar? O mdico tinha pudor de falar o
nome da "outra infeco" - a do HIV, a AIDS - e insistia que eu deveria
fazer, depois de comeada a medicao, os outros testes - no falou no Elisa
nem no Western Blot. Tudo bem, era um cdigo que eu entendia. Sentia-me
um pouco cnico, pois fingia no estar sabendo do que ele estava falando.
E um pouco humilhado, numa leve suspeita de que ele poderia supor que
eu no soubesse do que ele estava falando. Eu estava murado no saber
mdico.. Eu tinha esta "aids".
      A comunicao durou quarenta segundos, ele me pediu um cheque de
quarenta mil cruzados (1989), e eu tive de sair at a sala de espera e pedir
a Cludio nosso talo, porque normalmente eu no carrego nenhum e ele
tem sempre todo este tipo de documentao no bolso. Pedi o cheque, lancei-
-lhe um olhar de "deu zebra", entrei, assinei o cheque, e dizia algumas coisas
parceladas ao mdico, do tipo: acontece que fiquei muito tenso, um pouco
desequilibrado, o senhor compreende, afinal no  todo dia... Impassivel-
mente, ele me demonstrava que compreendia, mas que preferia que eu
fosse me desequilibrar em outros lugares que no naquele gabinete de-
semocionado.
Este foi o primeiro momento em que percebi o valor da palavra emitida:
 

ANOTAES  MARGEM DO VNER COM AIDS 9


adoecemos com as palavras, temos delas sintomas, retiramos da definitiva
seta lanada pela boca estratgias muito ricas. Foi tambm um instante em
que comecei a decidir que na fala eu criaria as armaduras para a funo de
desconstruir a aids que me envolvia e depois envolveria mais e sempre.
      Cludio queria que sassemos logo daquele corredor apinhado, toms-
semos um elevador e fssemos para a rua. Eu, com as bssolas todas
aideticadas, protestei:
      - Puxa, acabo de saber que tenho dois anos de vida e voc quer que eu
tome um elevador? .
      - Est certo que voc tem dois anos de vida, mas voc no vai querer
pass-los todos nesse corredor de elevadores, vai?
      Rimos. Tinha lgica e tinha humor. Tinha, sobretudo, a pertinncia da
vida.
      Chegados  frente do edifcio, tinhamos que tomar algumas posturas
relativas  vida nova que supnhamos comeava daquele momento em
diante. Cludio aconselhou-me ir beber gua num bar. Eu disse que no ia
entrar num bar para pedir gua mineral com gs e comear a chorar. Eu
achava que devia chorar, parecia-me a indicao prxima para o meu papel.
Notamos, imediatamnte, a partir de atos vulgares, que a crise poderia ser
muito confusa, muito pattica. Resolvemos no tomar gua nenhuma e nos
encaminhar para o mar. O mar. A muita gua de todos os consolos, o planeta
crespo. 


                   # amor (como sempre) primeiro


      Sentamo-nos num banco de praia e houve um pequeno momento de
uma proposta que era  e se a gente morresse junto? As declaraes de
amor de Cludio so sempre primeiras e nicas. 
      Eu comecei a dizer que ningum morreu, no vamos nos precipitar
isto. (Ningum morreu, cantou na minha cabea de uma forma docemente
obcecada Lus Melodia e eu pensei que ele, Melodia, era de fato o quinto
Beatle, s que no esteve presente no lugar exato, tanto faz, ningum
morreu, hoje o dia est to quente, abre mais meu a-pe-ti-te, ningum
morreu.) Nossa conversa terminou num longo planejar de coisas para
serem vividas em conjunto nos prximos tempos.
      Havia, tambm, o convite do tempo, os veres, os garotos e suas pernas
 

10 HERBERT DANIEL


e peitos, a transitoriedade da areia, a modulao do vento, a fidelidade do
oceano, a delcia dos convites sexuais e sensuais. A gente comeou logo a
planejar, para a vida que poderia ser agora pros tempos futuros. Vamos nos
juntar muito, vamos existir at o fim, se  que o fim chega assim, vamos
entender. A vida tem que ser algo que quando termine merea comemo-
rao. Esta  a vida que nos desejamos ali, para ns e para todos.
      Voltamos para casa progamando: voltamos progamando algumas
viagens em variegados espaos, algumas falas cumulativas que nos ltimos
dezenove anos ficaram ainda pela metade. Tudo se encaixava. Inclusive a
morte prxima. Tnhamos um problema: como contar para os outros.
Depois de muitas hipteses, a nica razovel: o melhor mtodo foi contar.
Nossa primeira noite foi s nossa, abraamos-nos, choramos, dissemos que
se era para ser, que fosse da melhor forma para os dois. O corao de todos
os amigos, mesmo os que o tinham frgil e soterrado, suportou. Como o
nosso. 
      A, comecei a receber centenas de sugestes teraputicas. Neusa, que
trabalha conosco h mais de dez anos, insistia que meu caso decorria,
segundo consulta inequvoca que fizera aos orixs, de mau-olhado e deu-
me ervas para elimin-lo. Usei, mas continuei com os outros medicamentos
oficiais. Posso dizer que as benzeduras no alteraram o quadro clnico, mas
fizeram-me bem aos arredores da alma, pois havia um movimento de amor
que obturava inquietaes da solido. J as alopatias receitadas fizeram-me
considervel mal. Enormes efeitos colaterais. 
      No acredito em nenhum charlatanismo e tenho horror das picareta-
gens. No entanto, respeito toda forma de curandeirismo, sobretudo quando
movida pela solidariedade. No que curem. Mas aliviam, como todo ato de
amor pode aliviar.


                      # noite da ronda da morte
 

      Sento-me na cama, acordando no meio de um sonho pastoso que ainda
me enlameia com um suor onde se misturam um calor denso, estranha-
mente glacial, e uma anestesia fria e escorregadia. No sei o nome da dor,
no sei as partes do corpo, estranhamo-nos, eu e minha pele e ossos. Chego
a ver-me disparatado, gordo e esqueltico - tudo que  carne  excesso -
sou apenas um esquemtico caroo de incmodo primordial. Estou mal no


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meio da cama, sinto-me mal no meio do corpo, no meio do mundo sou um
estar indevido e dubitativo.
      Ao meu lado, Cludio dorme com um certo infantilismo que me causa
inveja e ternura: ningum deveria dormir num momento como este, e ao
mesmo tempo Cludio dorme esgotado, depois de ter passado horas
tentando ajudar-me a enfrentar a febre. Ele sempre dorme como se no
mundo no houvesse farpas ou culpas. Entrega-se. Eu, por causas outras,
arranho-me com os cacos das pontas dos dedos das unhas roidas; agito-me
como se houvesse uma soluo e no me tivesse empenhado a srio.
      Movo-me no meio do algodo ensopado; todo ar parece mole. Tudo me
resiste e no sei ceder, j que minhas articulaes so conjugaes de
ferimentos cristalizados, ferimensos, sou um muitos machucados. Procuro
as marcas de tamanha derrocada do corpo: sim, este agora  o estgio fi-
nal, o prefcio do nada, depois  capitular e chegar ao eplogo. Nada se
identifica, sou aquilo de sempre, h aqui e ali uma rea de sofrimento, s
visualizado no tato grosso da mo. Meus dedos esto ainda vivendo um
pesadelo, como se as mos estivessem inchadssimas e tentassem manusear
uma agulha finssna num trabalho de fino lavor. O corpo continua o que
digo "o mesmo", e no entanto cheio de novos membros sem nome, que
seriam quase estranhos se no doessem de uma maneira corriqueiramente
cordial e inteligvel.
      Todo o rosto apaziguado de Cludio, com sua barba por fazer: minha
paisagem de tantos anos, agora de olhos fechados, possui a continuidade
que perdi no meu enredo de mim. O toque no di. Cludio no di.  talvez
a minha parte mais perenemente igual a si mesma, pelo menos. Na desaba-
lada desintegrao de minhas outras partes, e das partes de mim que me
continuavam, o que eu chamava de mundo, constato um sono banal de
Cludio, sua respirao cadenciada numa msica orgnica sobre a qual ho
tenho controle, no descontrole da desarmonia que me habita integralmente.
      J que Cludio no di, invade-me uma jubilosa perturbao um tanto
egosta.  comigo, s comigo. O mundo no vai acabar. Esta constatao,
chegada como alvio, imediatamente se transforma num pnico entumes-
cente, numa espcie de sentimento de injustia sem possibilidade de
recurso.  porque o alivio me encheu de minha paixo por Cludio, ela
renasce, como toda paixo, que s o  porque  nascente,  brotamento
inevitvel. Minha paixo circunscreveu de forma massacrante a dor em

12 HERBERT DANIEL

mim e me deu o limite da minha morte. Estou morrendo. Estou perdendo.
Vou ficar sem o Cludio, e dai sem mundo. Paixes, todos os meus amores
me mordem, sem piedade, arrancam pedaos de mim, arrastam minhas
postas pelos cantos do meu mal-estar, ou seja, do meu estar no mundo. Todo
prazer  particpio passado, toda emoo  disfarce de perda e saudade.
      No  a primeira vez que vejo uma injustia contra a qual nada posso
fazer. J vi muitas, praticamente s vi injustias. O mundo tem sido isto.
Mas pelo menos a indignao me ajudava a suportar a impossibilidade de
no ter armas para reagir. Agora, descubro que a indignao ataca minha
dor, soma e acrescenta, no  um canal de extravaso:  um aguilho
danando no crescimento da prpria injustia.
      Meus recursos usuais mostram-se falhos. O mundo agora  outro.
       porque estou morrendo.
      Sim, entendo que estou morrendo. A morte  isto mesmo. Aprendo,
num instante escuro e rgido, que no cabe revolta nem paixo, tambm no
cabe consentimento nem conformismo. Agora  o avesso. O vazio e o
inverso do vazio. 
      Deito-me, encolho, introverto. Descubro as vsperas. Sim, a aura do
prazer. O alvio. A capacidade de ir resumindo tudo de mim a mim,
desfazendo as peliculas que desenham fronteiras. Tudo  sair para dentro,
entrar para fora. Agora, estou na iminncia de descobrir algumas respostas.
No todas as respostas. Algumas que estavam tocaiadas. As grandes, as
enormes, as irrespondveis, estas j esto respondidas porque no tm mais
importncia nenhuma. S tinham importncia porque havia algum que
era capaz de formul-las. Somos isto, a capacidade de formular perguntas
sem respostas, para tranqilizar nossa incapacidade fundamental de ser-
mos achados. Agora, no pergunto mais, porque no sou mais agente
dessas dvidas vitais e esquemticas. Agora so as outras questes. As
afirmativas, as que so puras respostas.
      Tudo comea a ficar espantosamente claro. H uma ironia - sim,
mortal! - no fato de ser tudo bvio. O nico mistrio  a absoluta
transparncia.
      Estou perdendo o medo. Tudo se passava como se fosse medo. Agora
as coisas escorregam com uma ponta de curiosidade prazerosa. Ondas
energticas saem de mim, a partir do meu peito para a frente, a partir da
minha nuca para cima. De que  mesmo que tinha medo h poucos minutos?


ANOTAES  MARGEM DO VIVER COM AIDS 13


      De que  mesmo que eu tive medo a vida inteira?
      Disto. Estou morrendo. Ento, morro.
      No fundo da calma, um pequeno turbilho revira seu olho. Uma rea
de turvao perturba o grande branco que se ordenava. Estou morrendo de
AIDS, lembra-me o redemoinho, com seu chicote de sustos. Nova onda de
medo arrepia a instvel permanncia que se torna enrugada.
      Neste exato instante, no sei mais a diferena entre AIDS e morte.
Sorrio, dizendo-me que no h nenhuma diferena entre uma coisa e outra.
Por causa disto, subitamente alarmo-me, tomo-me de novo uma inquietao
racional. Comeam a nascer perguntas aguilhoantes, deste tipo de pergunta
que tira o sono, que grasna e range.
      Ento, de tudo que aprendi nos ltimos tempos, a nica coisa que sei
mesmo  que o novo nome da morte  esta sigla oca, brbara e dissonante?
Sinto-me perfeitamente enganado, encontro um lado na injustia que  o
tradicional, que  aquele onde um injusto, mesmo que no seja uma pessoa
ou coisa, onde a fonte da injustia  identificvel e provavelmente vencvel.
Rola uma rebelio que faz voltar a dor inteira, que torna miservel o corpo,
estou aos farrapos, mas rebrilhando numa armadura contra alguma coisa
que me parece ser muito bem conhecida. 
      No  a morte. Nem a doena AIDS.  a aids.
      Estou deixando, at agora, que falem em mim. No vou deixar. Eu
falo... aids... Agora falo.
      Fao um comentrio, em voz alta. Rouca, minha voz parece ter perdido
a maleabilidade. Comeo a discursar. Rebento o sono de Cludio que
estremunhado no entende quase nada da catilinria que ento sentado na
cama. Cludio acorda e eu reclamo do mal-estar.  preciso fazer alguma
coisa, no estou nada bem, estou ruim, parece que vou at morrer, mas no
 AIDS no;  preconceito! ,
      Comeo a reclamar, rabugento, irritado. Ah, no, to pensando o qu?
Algum faa alguma coisa, assim no fico, acho isto um absurdo, uma
escamoteao, no  possvel que no tomem providncias. Tenho ins-
pirao para um comcio. Portanto, fao um comcio. Cludio se perturba
com tamanha exaltao, aconselha posies na cama e chs e comprimidos.
Rio. De verdade, comeo a rir, com uns esgares que no se parecem com
nenhum riso, mas  uma autntica gargalhada. Sinto-me ridculo, tenho
noo de ser pattico.


14 HERBERT DANIEL


      Digo a Cludio que isto de AIDS no  nada disto. Cludio franze o
cenho, mas no me pede maiores esclarecimentos. Fao uma exposio de
motivos. Cludio pacientemente empurra para mim remdios, esfrega
meus pulsos, consulta o termmetro. Explico-lhe que antes pensava que
doesse mais, quando a gente fica muito doente. A dor  a parte mais
suportvel. 
       a parte que d para comentar. Ao vivo. E acrescento que ao VIVO 
o nome de um romance que vou escrever um dia. Rudos imediatos.
      A vida  uma farsa barulhenta. Nada tem que a justifique. E no  nada
do que promete. Por isso mesmo  uma mentira adorvel. Uma fico pelo
inverso do disfarce. Uma inveno. A ser falada. Ao vivo.


                              # dor


      A primeira armadilha  imaginar que a experincia da AIDS  pura-
mente a experincia de uma dor fsica. Deixemos de lado a dor fsica. A dor
fsica para a qual servisse o leno de Desdmona, no faria do leno seno
um mero acessrio de uma cena banal. Tentemos trazer o leno como objeto
da dor moral que penetra na luta poltica e potica da tragdia. Um negro
com dor de dente arrastando um leno sobre uma dor de dente pode ser
inquietante, mas um negro que carrega o leno da desconfiana e do
desespero, elimina a dor fsica para compor o personagem trgico de
Desdmona. 
      Desdizer o melodrama para captar as movimentaes da tragdia. 
      Viver com AIDS  inserir-se na tragdia da poca. Nada acontece
comigo. Acontece conosco. Humanidade hoje. Somos todos os sujeitos de
uma dor maior. Faamos por merecer esta histria que herdamos.


                # efeitos colaterais num pas de vencidos


      Toda doena grave supe terapias graves, intervenes mais ou menos
brutais, remdios com efeitos colaterais devastadores. Por que deve ser
assim, pode-se discutir. A AIDS no fica atrs. O fato de ser considerada
uma doena "incurvel e mortal" justifica dois tipos de atitudes extremas:
1. nada resta a fazer (que  a atitude covarde, mesquinha, que muitas vezes
orienta at mesmo polticas governamentais); 2. tudo deve ser feito, de
qualquer maneira (para matar o vrus alguns segundos antes de matar o
paciente...). 


                                   ANOTAES  MARGEM DO VIVER COM AIDS 15


      Bom,  preciso usar muitos critrios para suavizar esses extremismos.
A orientao segura  garantir que o primeiro elemento da luta contra a
AIDS, tanto do ponto de vista individual quanto coletivo,  o absoluto
respeito aos direitos humanos da pessoa com o HIV. Esta  a maior e mais
eficiente orientao teraputica at agora descoberta.
      Quero alertar que esta afirmao no  retrica. Trata-se de uma
tecnologia para vencer a AIDS.
      Infelizmente, esta tecnologia no faz parte do chamado arsenal de
"modernidade" do nosso pas. O abuso aos direitos humanos continuam
sendo o nosso remdio cotidiano, para mais facilmente chegarmos  morte
civil.
      Toda droga tem efeitos colaterais indesejados. Como usurio, a nica
droga que conquistou meu corao e seduziu meu esprito foi a aspirina.
Mas ela pouco pode contra o HIV. Portanto, tenho que entrar no campo das
drogas pesadas, as legais. Quanto s ilegais - distino to complicada de
fazer - no as usei nunca, sempre fui alrgico - o que pode ser uma
maneira de somatizar minha caretice, leiam como quiserem. No entanto,
sou absolutamente partidrio da legalizao e controle estrito de todas as
drogas. Por uma questo de cidadania, no por estratgias de consumo.
Enfim, na discusso das drogas pesadas h um elemento essencial a
discutir: o lucro. Ele que atormenta, ele cria a guerra, ele insufla bandidos
e polcias, ele destri toda a tica de tratamento das grandes doenas...
      No lhes vou falar de minha relao com as drogas desse mundo. Aqui,
pretendo tocar na minha relao com a droga desses mundos contempo-
rneos.
      Em resumo, a maneira como a epidemia de AIDS vem sendo tratada no
Brasil vai um dia fazer parte do museu da estupidez humana, onde o
bestialgico da aids tem inmeras instalaes. A falta de conhecimento
especfico sobre a doena, associada a idias recebidas de manuais gene-
ralistas, mais uma dose de arrogncia, tudo isto matou muita gente. E no
foi de AIDS. Foi sim de uma condenao  morte civil que atinge soropo-
sitivos ou no, que contamina toda a populao brasileira.
      A ausncia at hoje de uma estratgia nacional integrada de combate 
epidemia, substituda por iniciativas deslocadas e impertinentes, como
campanhas terroristas ou bobinhas na televiso, e mentiras ditas em tom
acadmico, tem produzido os mais monstruosos efeitos colaterais. Em


16 HERBERT DANIEL


suma, o pior efeito colateral  a morte civil, a ausncia de direitos bsicos 
 vida a  sade.
      Segredos da desordem deste pas. No h ningum, nem mesmo o mais
insensvel burocrata do Ministrio da Sade que no saiba que estamos s
vsperas de um desastre. Afinal, dir-me-eis, este  um retrato do pas. O
Brasil est convulsionado, atordoado, desbussolado (preciso importar este
termo, o pas merece). Minha gente, somos um bando de agulhas sem norte
e o palheiro foi organizado por economistas e tecnoburocratas. Um pas que
no amadureceu processos de transformaes estruturais desenvolve for-
mas supremas e elsticas da perplexidade. Poucas certezas podem ser
entrevistas: por exemplo, a democracia emergente est sendo submetida a
uma plstica violenta. Amputaes, ablaes de rgos, transplante de
membros. A msica de fundo imita vendaval e trovoada, para atemorizar
coraes doces. No  ventania e corisco. Tudo  um efeito especial
cinematogrfico de sopro nos castelos de papel. Inclusive papel-moeda.
Os ltimos leques do imprio so fabricados com ttulos do tesouro. Em
papel de rascunho.  
      Por outro lado, o mundo apodrece onde havia expectativa de muito
verde, ou pelo menos de derramamentos de azul. O socialismo, de tanto se
garantir real, enfantasmou, babou uma retrica de Estado e criou manhas
de aposentado mitmano. Tudo bem, estudantes encaram canhes chine-
ses e parte-se o muro (hum, mas havia mais picaretas do que s os
instrumentos propriamente ditos, ali...). H democracias furando o cerco.
Mas parece-me, ah, e eu queria acreditar diferente, que emerge uma
concepo de democracia de elite, uma ordem social populista que reza no
tero da futilidade. Falam em terras da oportunidade, onde era preciso
plantar as mveis areias da solidariedade.
      A gente tem de enfrentar muitos efeitos colaterais, depois de engolir
a mezinha amarga de cada dia. Eu, pelo menos, tenho a desculpa da
AIDS e de seus disparates. Minha diarria de mais de um ano deu-me a
noo de humildade, refletindo sobre os temas grandes do mundo no
privado do meu desencanto. Depois, furnculos me assaltaram nas reas
de assentamento. Escrevo de p. Sinto-me feliz por ter alguma coisa em
comum com Marx, modstia  parte. Uma otite me entope o ouvido,
ensurdeci um pouco, mas minha falta de talento musical no me permi-
te citar Beethoven. Somos todos corpos frgeis, cheios de colateralida-
 

ANOTAES  MARGEM DO VIVER COM AIDS 17


des de nossa poca. Somos uma pele conturbada cuja nica razo  tocar
uma outra. Mesmo que por sinais interpostos, sopro, abano, voz ou mensa-
gem. Ainda bem que a solidariedade  o mais seguro dos efeitos colaterais
do existir.


                           # pax

 
      O corpo em paz...
      A doena em mim tem tido uma evoluo lenta e absolutamente
tolervel. Muitos transtomos transitaram por meus espaos de carnes,
outros mais perpassaram endereos menos enxundiosos, como a alma,
outros ainda flanquearam ameias do pensamento ou do desejo, orbitaram
em novas leis da gravidade.
      Corpo: leis gravitacionais. Matria atrai matria. Corpo atrai corpo. 
Lei dos fsicos.
      Doenas fsicas que matam estabelecem uma relao com as leis da
gravidade. Fala-se de uma doena grave, a AIDS. Grave. Se o corpo se
desequilibra nessa materialidade de estar no mundo, por regncias gra-
vitacionais, no acontecer do mundo o desequilbrio se plasma na vigncia
da atrao dos corpos que cria a gravidade do desejo, lugar onde os corpos
ocupam o mesmo espao e o tempo  o do outro a desejar.
      Tenho aprendido a gravidade (da doena grave) no seu no-tempo
nunca inscrito, dito morte. H ento um mundo de leis no espao e no
tempo, e um mundo sem dentro, nem fora, o mundo onde eu morro como
possibilidade e portanto s posso viver como hiptese. Do fundo da
gravitao dos corpos, aquilo que atrai de um ao outro em razes diretas e
inversas de quadrados e cubos de proximidades e atemporalidades, surge
a hiptese de inventar a vida a partir da deciso de diz-la viva. No est na
palavra a fora da taumaturgia, est na deciso do ato de faz-la abismo,
mentira, fico, declarao de amor, amor vagabundo, solidariedade.
      A morte fsica redistribui a fsica. Agora, o corpo no  paisagem: 
enredo; e a vida no  fico e histria,  a geografia do prazer da atrao do
outro. Assim, a vida no  a via, bios, esfera, das fantasias fsico-qumicas.
A vida  o ato de faz-la, apesar do peso e do pesar. A vida  falha, ausncia,
mera probabilidade. O jogo sobre o nada. O nada  tudo, pois o brao do
prximo.
      A morte no tem gravidade. No atrai corpos, no rege a matria da fala


18 HERBERT DANIEL 


que falha e falseia. No se vence a morte, pois no h inimigo a. H outra 
grandeza na falta total de gravidade, neste no que me faz suspirar no
momento do orgasmo comum: sim, sim, eu disse sim, sempre.
      Sinto-me como quem vou e morro - ou mortal; no exatamente que
morrer vou. Estou, portanto, em perfeita desordem vital. Tenho todo o
tempo. Encontrei uma ferida de amor na lisura do nada. Estou crespo, cheio
de mapas dos acidentes da transcorrncia da inventividade da pele. Tenho
todo o tempo da pele. Tenho toda a pele do mundo. Tenho todo o tempo do
mundo. 
      Afinal, com tudo isto quero dizer apenas que estou vivo da maneira
mais convencional da vida. Com tudo isto que carregamos. Estas absolutas
banalidades que deveramos catalogar no item de vivacidades.
      Assim quero e fao!
      Os atos do cotidiano podem parecer muito fteis. E sero, provavel-
mente. Mas so eles que nos do o tom e a medida da vivacidade, ou seja,
da vida mdia do cidado no conjunto de relaes sociais que fazem dele o
que chamamos um ser humano. Cidado da vida. Nesta vivacidade viver
como perfeito vivacidado, ou seja, a vastido da idade j.

         
                              # as heranas


      No  a morte.  a vida.  a vida o que dentro do corpo abre o mistrio,
a eternidade e a finitude. Todas as interpretaes e todos os deuses. O corpo
 um sacrrio onde cabem todos os males, todos os absolutos, onde se
entulham todas as oferendas, e onde se multiplicam mistrios infinita-
mente. Mistrios e seus saberes nascem o tempo todo. Do encontro de dois
deuses pode sair uma variedade infinita de outros, ou no sair nenhum, j
que ambos podem morrer tambm como resultado do encontro. E quando
se perdem alguns deuses, muita coisa pode acontecer, mas nem sempre
temos condio de perceber. Alguns deuses acontecem alm de nossa
percepo. Talvez a maioria deles.
      Voc j est enjoado de ouvir falar de aids? Ser que voc j se indignou
o bastante com tudo o que sabe? No, duvido que as pessoas saibam o que
h por trs desta histria de mortes, dores atrozes, desesperos, herosmos,
mesquinharias, violncias, preconceitos, demonstraes de fora da cin-
cia... Sei que vai ser preciso muito, muito esclarecimento para que um dia


                                       ANOTAES  MARGEM DO VIVER COM AIDS 19


esta histria seja contada como algo exemplar na falncia de nossa civiliza-
o. O desinteresse poltico, a ignorncia articulada de idelogos e lderes,
a vaidade dos cientistas, os preconceitos de todos... Tanta coisa.
      Agora est rolando um sofrimento que cresce, uma infelicidade que se
espalha. Daqui a alguns anos todo este sofrilnento ser considerado em vo.
Aparecero alguns que sero considerados meras vtimas de um horror que
poderia ter sido evitado. Sempre  assim. Depois que passa, parece que o
horror poderia ser evitado se algumas pessoas de boa vontade tomassem a
deciso justa no momento certo.
      Sou um pedao de carne contaminado por uma histria triste, todos
temos nosso papel no palco, oh, sim, o meu papel no ser por meu gosto
como o do triste mercador, ser o da escolha de minimizar a dor fsica para
integr-la na tragdia moral. Esta  uma escolha que me alivia a dor, que me
d uma noo de pertencer a uma poca que no precisa ser perdida como
uma mgoa. Muita mentira nos contagia, nos torna uma patologia sem cura,
mas no mata instantaneamente, deixa a morte cozinhar em fogo lento,
devagarzinho, para que quando a morte fsica chegue, chegue como esca-
pamento. Tenho cada vez mais certeza de que tudo que tem sido feito em
torno da aids  uma armao extremamente sofisticada que ter conseqn-
rias muito mais graves que toda a capacidade de extermnio do prprio
vrus. Ainda no tenho certeza de tudo que ser a herana da aids. Muito
haver a dizer sobre a herana para os tempos ps-cura. Sero confusas
heranas.


                              # fenda viva


       preciso ter claro que estamos diante de uma epidemia mundial, uma
pandemia, nova, com caractersticas muito prprias, que vai atingir toda a
humanidade, especialmente a parte mais jovem da populao, sexualmente
ativa, economicamente ativa, que vai gerar conflitos e problemas dentro das
famlias, das escolas, das empresas, das instituies cientficas, das comu-
nidades, das cidades, dos pases... Lembremo-nos que os jovens de hoje so
a primeira gerao a comear a vida sexual tendo diante de si a realidade e
as fantasias da AIDS. Por tudo iiso,  preciso entender que a AIDS , alm
da epidemia do HIV, tambm uma epidemia de medo, ignorncia, precon-
ceito, violncia e discriminao. A localizao dos problemas num pano de


20 HERBERT DANIEL


fundo mais aberto nos orienta para multiplicidades de abordagens para
enfrentar a aids e a AIDS.
      O ponto inicial de orientao estratgica nos leva a divulgar que temos
que viver com a AIDS. A AIDS est entre ns,  uma doena nossa, no 
uma doena do outro, do alheio. VIVEMOS TODOS COM ELA. A educao
de que a doena  um problema comum de toda a humanidade, gera uma
estrutura de enfrentamento de onde surgem as razes da solidariedade
social.
      Precisamos aprender a vencer-a morte. No aquela, a de todos e a de
cada um. A morte civil. A de todos, que no deve afetar nenhum.
      Vivi muitas mortes, vida afora. At mesmo hipoteticamente, ou como
risco perceptvel. Tive vrias relaes com a morte. Inicialmente, um
mergulho na guerrilha. A morte na bala, no acidente, na tortura, na perdio
de um inimigo localizvel e tremendo. 
      Depois, a morte simblica do preconceito, que atribui ao homossexual
uma caracterstica de estril, ou simbolicamente morte.
      Agora a AIDS.
      Que morte  a que me habita com seus ares dissolventes? Que covardia
tem esta morte de no estimular da mesma forma a mesma rebeldia?
Porque esta  uma morte civil, travestida de diagnstico mdico, de
prognstico sombrio. Esta venceremos! Abriremos no horror a fenda. Viva.
      Dado isto, face  morte, rebelo-me por igual.
      No aceito essa morte.
      Estou me preparando para encarar a morte. Aquela. A de todos.
      Esta  a maneira mais simples de dizer que estou encarando a vida. Esta.
Aquela. A de todos. A que se deseja para todos, na forma de uma vida de
tal forma bela que quando ela chegue, indesejada sempre, motive uma
simples comemorao. Valeu. Viva a vida ! 
