VIAJANTES
A Família Richardson partia para mais uma de suas aventuras. Tendo acabado de voltar de umas "férias", os ânimos de todos estavam renovados. A última aventura não alcançou os objetivos pretendidos, mas as esperanças não chegaram ao fim. O barco, apelidado de Romano, já estava equipado e pronto para partir. A viagem contaria também com um novo membro da família: Nathan, o filho mais novo do casal, que possuía, além dele, uma filha de 12 anos chamada Katie. A garota já estava impaciente, queria partir naquele momento. O pai já havia lhe explicado que só sairiam no dia seguinte, bem cedo, pois já havia escurecido e era mais difícil navegar contra a brisa. Mesmo assim ela não se conformava com isso e caminhava pela popa da escuna de um lado para outro, incansavelmente. Seus pais , assim como todos que permaneceram no porto naquela noite, já haviam entrado em seus barcos, fugindo do frio.
A garota se recusava a dormir. Sentou-se perto à porta da cabine e começou a imaginar como seria sua nova aventura. Foi quando, de repente, a garota ouviu um barulho, como se alguém batesse no casco do barco. Ela se levantou e correu para dentro, indo parar debaixo dos cobertores. O que fez com que ela não percebesse um vulto que a seguia...
O pai de Katie, Andrew, se levantou e foi até a cama da garota:
_ Que foi, filha?
_ Tem alguém lá fora, mexendo no barco!
_ Não tem ninguém lá fora não. É fruto da sua imaginação. Durma agora, filha.
Por precaução, Andrew foi até o convés checar se tudo estava bem por lá. Não havia ninguém lá. A filha devia Ter ouvido o vento bater no casco e pensado que era alguém. Mais tranqüilo, voltou para a cabine.
Contudo o vulto permaneceu escondido atrás de umas caixas de mantimentos, apenas esperando que todos dormissem para sair dali.
No dia seguinte todos acordaram cedo e a partida logo aconteceu. Pretendiam viajar pelo Atlântico, visitando pequenas ilhas desertas nas proximidades dos EUA. A aventura levaria aproximadamente 1 ano e nada podia dar errado. Andrew era um ex-oficial da Marinha, casado com Lisa, uma professora de Inglês. Ambos gostavam de viajar e , apoiados pelo resto da família, resolveram sair para mais esse passeio. A filha perderia o ano na escola, mas a mãe ensinava o que podia para que ela não se atrasasse demais com os estudos. Aquela seria a viagem da vida deles, se não fosse pela tragédia que os esperava.
Os primeiros dias da viagem correram normalmente. As crianças se divertiam observando o mar e os animais que circundavam o barco. Andrew e Lisa estavam felizes por tudo estar saindo corretamente. O sol começava a se pôr naquela tarde de Sábado e a família já se preparava para jantar. Foi quando avistaram um segundo barco, abandonada no meio do oceano. Hesitaram em chegar perto, mas podia haver alguém precisando de ajuda dentro do barco, então Andrew foi à bordo da pequena embarcação.
Não havia ninguém lá dentro, mas os equipamentos de mergulho do barco estavam espalhados pelo convés. Vendo que nada podia fazer, Andrew voltou a seu barco e contatou a guarda costeira dando as coordenadas do local onde o barco abandonado estava. "Eles darão um jeito nisso." -pensou ele.
Continuaram sua viagem por mais um mês, parando em diversas ilhas e coletando materiais para pesquisa. Tudo corria bem até que Katie começou a se sentir mal. Era uma Segunda de manhã, o sol acabava de nascer e a menina ainda dormia, tendo pesadelos e ardendo em febre. A mãe preocupou-se em separá-la do bebê temendo que a possível doença passasse a ele. O pai já não sabia o que fazer. Estavam a trezentos quilômetros da ilha mais próxima e não podiam pedir socorro pelo rádio, pois os aparelhos de comunicação eram fracos e eles estavam fora da área de alcance da Guarda Costeira naquele momento. A mãe correu até a caixa de primeiros-socorros buscando algo que pudesse baixar a febre de sua filha.
À tarde, já tendo baixado um pouco a febre da menina, Lisa já se sentia um pouco mais tranqüila, mas queria chegar logo a um lugar habitado, onde alguém poderia ajudá-los.
Naquela mesma noite, depois de enfrentarem uma terrível tempestade, chegaram a uma ilha deserta. Decidiram acampar ali até que o tempo melhorasse. Já na manhã seguinte Andrew não se sentia bem. Tinha calafrios e dores inexplicáveis por todo o corpo, enquanto Katie ainda sofria acessos de febre. Lisa agora estava só, com Katie e Andrew doentes e seu pequeno bebê Nathan. Não sabia o que fazer e rezava para que alguém tivesse ouvido os pedidos de socorro enviados por Andrew naquela tarde.
Logo que cessou a tempestade , Lisa voltou ao barco em busca de água e alimentos. Foi quando notou algo estranho nas latas de comida: todas elas tinham um pequeno furo no fundo. Aquilo podia significar que estivessem estragadas...mas já era tarde demais. Andrew e Katie não resistiriam muito tempo se continuassem naquela ilha, sem alimentos e tratamento médico. Lisa, depois de muito esforço, conseguiu levá-los de volta ao barco. Os dois ficaram em um mesmo quarto -o de Katie-para que Lisa pudesse observá-los mutuamente. Ela tentou ainda mandar algumas mensagens de SOS, mas parecia que ninguém as recebia.
Depois de uns dias nessa situação, Lisa começou a se sentir mal também, angustiada com tudo aquilo, chorando a todo instante. Não queira que a vida de sua família acabasse daquele jeito.
I
Casa da agente Scunny _ 11:00 am
_ É você Scunny?
_ Não, Nox. _ responde ela ironicamente.
_ Ainda bem que encontrei você em casa...
_ O que você quer agora? Vai estragar mais uma folga que eu consegui depois de meses de trabalho?
_ É...,bem...eu pretendia convidar você a vir até aqui no Bureau para nós discutirmos uns assuntos...<pausa> é algo que você vai gostar.
_ O que pode ser, vindo de você, que eu possa gostar? <pausa>. Alguma viagem de última hora para uma praia deserta do Caribe com passagem só de ida...
_ Você acertou parcialmente...tenho duas passagens para Savannah, na Geórgia
_ E então?
_ Alguns fatos estranhos ocorreram por lá e eles decidiram chamar o FBI por precaução.
_ Mais um dia de descanso que vai "por água a baixo"...
_ Scunny?
_ Sim, Nox?
_ Casa comigo?
_ Isso não vai melhorar meu humor. Já estou chegando aí.
_ Não precisa correr. O vôo só sai às três.
_ Ok.
II
Savannah, Geórgia _ 10:30 am.
_ E então, capitão? Encontrou alguma coisa?
_ Ainda não, senhor, mas as buscas pelos mergulhadores desaparecidos continuam. Já vasculhamos aproximadamente 1 quilômetro e nada encontramos além do barco abandonado.
_ E o outro barco? Aquele encontrado pelos pescadores? Conseguiram resgatá-lo?
_ Conseguimos trazê-lo para Savannah, mas os tripulantes não estavam em boas situações.
_ O que vocês encontraram?
_ O barco era de uma família americana, os Richardson, que realizavam uma viagem de lazer e estudo pelas ilhas desertas da costa.
_ Quantas pessoas eram?
_ Quatro no total. O casal e seus dois filhos - um bebê e uma garota .
_ O que aconteceu com eles?
_ O mesmo que tem acontecido nos últimos dias com os navegadores que partem de Savannah...mas o bebê sobreviveu.
_ Temos que procurar ajuda. Isso não pode continuar assim<pausa>. Já contataram o FBI?
_ Sim. Os agentes chegarão hoje à tarde.
_ Se precisar de mim você sabe onde me encontrar, não?
_ Sim, senhor.
III
Washington D.C. _ Aeroporto _ 3:00pm
Os agentes especiais do FBI Dara Scunny e Nox Ruldem eram considerados protagonistas dos Arquivos-X, casos envolvendo assuntos inexplicáveis que ,na maior parte das vezes, eram arquivados, sem solução, nos armários do FBI. Dara se envolvera nos Arquivos -X desde o desaparecimento de seu irmão Bernard,que ela acreditava ter sido abduzido por OVNIS. Ruldem fora designado a acompanhar a agente devido ao seu grande interesse na busca da "verdade". Serviam de fantoche para seus superiores sem que percebessem. Acabavam encobrindo conspirações governamentais com suas teorias malucas. Ruldem acabou se tornando um grande cúmplice e parceiro de Dara que também o respeitava como um amigo. Já trabalhavam a três anos juntos e conheciam-se muito bem, a ponto de um saber o que se passa na mente do outro. Procuravam desvendar seus mistérios, mas eram muitas vezes barrados pelas próprias forças do governo e do FBI. Estavam no centro de grandes conspirações.
Haviam acabado de embarcar no avião, que levaria ainda alguns minutos para levantar vôo.
_ O que nos espera em Savannah Ruldem?
_ Até onde sei estamos nos confrontando com mais um caso inexplicável de infecção por agentes patogênicos desconhecidos...
_ Sim, mas o que aconteceu? Quantas pessoas estão envolvidas?
_ Pelo que o Capitão Regie pode me dizer pelo telefone, parece que várias das pessoas que partiram do porto de Savannah desapareceram nos últimos dias e foram encontrados dois barcos, mas não sei nada sobre os tripulantes.
_ Espero que não seja um caso de briga entre pessoas...isso me deixaria mais nervosa ainda.
_ Scunny?! Vamos imaginar que essa é nossa viagem de Lua de Mel...
_ Por que eu deveria afirmar isso_ diz ela, olhando nos olhos do parceiro.
_ Você se sentiria melhor.
_ Não agüento essas suas brincadeiras_ diz Dara sorrindo_ Só você mesmo para me fazer sorrir.
_ Para você pode até ser brincadeira...
Com licença, senhores? Interrompeu a aeromoça, que trazia uma bandeja com balas e bombons e era acompanhada por um rapaz incumbido de servir as bebidas que se encontravam em um pequeno "carrinho-congelador". _ Aceitam alguma coisa para beber? E algumas balas?
Ruldem, vendo que a parceira não iria fazer sue pedido antes dele, falou:
_ Eu aceito um pouco de refrigerante. Coca-cola, por favor. E você parceira? Não vai beber algo?_ diz ele olhando sobre os cabelos vermelhos de sua parceira e observando um dos passageiros da fila de bancos ao seu lado.
Dara, percebendo o interesse do parceiro no senhor de terno escuro a seu lado, respondeu à aeromoça que nada queria naquele momento e ao vê-la retirar-se, voltou-se para Nox, interrogando-o:
_ O que deu em você? Por que tanto olha para o senhor aí do lado? Viu algo estranho?
_ Calma. Não foi nada de mais. Apenas me interessei pela revista que ele estava lendo: "Casos Inexplicáveis".
_ Mesmo convivendo com você a tanto tempo, às vezes eu não compreendo certas coisas que você faz.
Nox volta-se sorrindo para ela:
_ "Convivendo e aprendendo".
IV
_ Base da Geórgia chamando! Alguém na escuta?
_ Pode falar. Aqui é o Malbruck.
_ Senhor, sou o capitão Regie, e trabalho na operação de resgate aqui na Geórgia.
_ Alguma novidade, capitão?
_ Sim, senhor. Conseguimos encontrar o corpo de um dos mergulhadores desaparecidos.
_ E quanto às causas da morte?
_ Não temos nenhum vestígio. Teremos que esperar por uma autópsia.
_ Nós não podemos esperar mais. De acordo com os resultados dessas autópsias nós teremos que colocar toda a cidade em quarentena . <PAUSA> E os agentes federais?
_ Estão a caminho. Devem chegar daqui a alguns minutos.
_ Qualquer novidade me contate.
_ OK.
V
No aeroporto próximo a Savannah, Nox e Dara desembarcavam. Um oficial da marinha os aguardava no saguão e se apresentou como oficial Mike. Ele estava incumbido de levá-los até a base móvel da Marinha montada perto ao porto de Savannah. Entraram no jipe e partiram.
Ao chegar à base se apresentaram ao capitão:
_ Sou o agente Nox Ruldem, do FBI. E esta é a agente Dara Scunny. Viemos aqui a pedido do oficial Malbruck.
_ Eu sou o capitão Regie, designado a acompanhá-los nesse caso. Qualquer coisa que vocês precisem é só me pedir.
Scunny, olhando interrogativamente para Nox, perguntou:
_ Onde nós iremos ficar hospedados?
_ Reservamos dois quartos num motel na estrada aqui perto. O oficial Mike levará vocês até lá.
Nox, voltando-se para sua parceira, logo que Malbruck se afastou, murmurou:
_ Os serviços do FBI estão cada vez melhores. Já temos até quartos reservados...e separados.
_ Ainda bem. Assim eu posso descansar um pouco...em paz!
_ Eu acho que não, minha parceira. Nós temos muito trabalho a fazer. Temos que ir até o porto para investigar os barcos que os oficiais conseguiram resgatar e talvez você tenha que fazer algumas autópsias.
_ Deixe-me ao menos tomar um banho, trocar de roupa.
_ Então vamos logo, que Mike está a nossa espera no carro.
Dentro do carro, Mike foi relatando as novidades sobre o caso para os dois agentes:
_ Já foram resgatados dois barcos. Deles, um estava vazio e pertencia a dois mergulhadores que faziam pesquisas na região, que hoje foram encontrados mortos. O outro barco, de posse de uma família americana, foi encontrado perto de uma ilha e seus tripulantes_ um casal e seus dois filhos_ estavam lá dentro.
_ Vivos?_ perguntou o agente.
_ Apenas o bebê. Ele estava chorando de frio e de fome, mas já passa bem. Já os demais, todos mortos.
_ Vocês já têm alguma evidência de que pode tê-los matado?_ indagou a agente com toda sua curiosidade de médica legista.
_ Ainda não. Preferimos não mexer nos corpos, com medo de ser algo contagioso. Os equipamentos necessários não haviam chegado.
Para Dara aquilo não passava de um simples crime de vingança, mas para que sua conclusão fosse correta deveria haver algum fato que relacionasse as pessoas mortas.
_ Existia alguma ligação entre os mergulhadores e a família morta?
_ Pelo que sei, não. As investigações sobre o passado dessas pessoas ainda estão em andamento e nós não temos conclusões certas sobre isso.
Nesse momento Mike saiu da estrada, indo parar no estacionamento do motel onde Dara e Nox se hospedariam. As perguntas cessaram. O s agentes trocavam olhares como se conversassem por telepatia. O oficial interrompeu o silêncio:
_ Chegamos. É aqui que vocês passarão os próximos dias. Espero que gostem.
Eles desceram do carro e logo Mike arrancou, deixando-os lá. Entraram. No balcão não havia ninguém. Tocaram uma campainha que se encontrava no canto do balcão. Esperaram algum tempo até que surgiu um homem velho e bastante sonolento, que devia ser o atendente.
_ Boa tarde. O que desejam?
Nox já havia deixado o balcão e observava os vários cartazes de filmes pregados nas paredes, enquanto Scunny providenciava os quartos.
_ Nós temos duas reservas para quartos de solteiro. As reservas foram feitas por oficiais da Marinha.
_ AH? Quarto de solteiro? Vocês por acaso não leram a placa lá fora?M-O-T-E-L Nós não temos quartos de solteiro.
_ Você ouviu isso Ruldem?
_ Já percebi que me enganei. O FBI nunca arrumaria um lugar bom para "os menos procurados" se hospedarem.
_ O que nós vamos fazer?
Olhando diretamente para o atendente que parecia ter passado toda a tarde dormindo, Ruldem, já causando medo no homem. Perguntou-lhe se ao menos havia quartos vagos_ de casal. O homem abriu um velho e sujo caderno e procurou por um número não preenchido.
_ Temos este aqui. O 310. Apesar de dar para o estacionamento, é um ótimo quarto.
Scunny já estava cansada de tudo aquilo. Queria descansar. Olhava para seu parceiro pedindo socorro.
_ Ficamos com este mesmo. Ao menos tem televisão?
_ Sim. Não é a cores, mas tem.
Apesar de já estarem acostumados com tudo aquilo, sempre ficavam um pouco chateados. Pegaram a chave e foram para o quarto. Nox tentou ligar a TV. Ligou, mas não conseguiu sintonizar nenhum canal. Scunny foi tomar um rápido banho, apesar de ter encontrado o banheiro em péssimas condições. O sol já havia dado lugar à lua , quando o atendente veio bater na porta do quarto 310. Antes, porém, ligou para alguém:
_ Eles estão aqui.
<pausa>
_ Sim, eu estarei vigiando-os.
_ Toc! Toc!
Nox levantou-se da cama e foi até a porta. Era o atendente quem batia na porta.
_ Ligaram do porto para que vocês compareçam lá o mais rápido possível. Precisam realizar algumas autópsias.
Scunny voltou-se para Nox, indiscutivelmente chateada, e falou:
_ O trabalho nos chama. Vamos logo.
_ O oficial Mike virá aqui para pegá-los. Ele já deve estar chegando.
Depois que o atendente deixou o quarto, os agentes pegaram tudo que precisariam e saíram também.
O carro já estava lá fora. Não demoraram para partir. Levaram aproximadamente dez minutos para chegar à base. Lá já os esperava o capitão Regie.
_ Boa noite, agentes. Estávamos esperando vocês para começar a avaliação dos corpos. Não podemos atrasar mais as investigações do caso. A polícia local já está ficando preocupada.
_ Vamos, então.
Entraram em uma sala equipada com tudo necessário. Os corpos, cinco no total, repousavam sobre frias mesas de metal, cobertos por lençóis brancos. Dara aproximou-se de um deles. Era um dos mergulhadores. Ele seria o primeiro. Pediu luvas e instrumentos. Ligou seu pequeno gravador e iniciou a operação:
_ 11:00 pm, Sábado. 13/11/97. Homem, 37 anos, peso aproximado 75 Kg. Ausência de fraturas externas. Iniciando incisão...
A autópsia prosseguia. Nada de estranho havia sido encontrado ainda , a não ser o fato de parecer que todos os órgãos do homem haviam parado de funcionar em conjunto antes da morte. Não havia sido afogamento. Estava descartada a possibilidade de sabotagem nos equipamentos.
_ Estômago. Coloração normal. Intestino, normal. A última coisa que ele comeu parece ainda estar aqui. Grãos, enlatados. Preciso de um exame toxicológico deste material_ disse retirando um pouco da massa do interior do órgão do homem.
_ Levarei até o laboratório_ falou o capitão.
Prosseguiram os exames dos demais corpos. Encontraram, finalmente, algo que ligasse a morte daquelas cinco pessoas. Todos tiveram uma excelente refeição no dia de suas mortes. O exame toxicológico do alimento encontrado no organismo daquelas pessoas acusou a presença de uma substância desconhecida_ a mesma em todos eles. Teriam que fazer novos exames para descobrir o que seria aquilo.
Já passava da meia noite quando Dara finalizou as autópsias. Nox, que não apreciava "explorações de corpos", deixou a sala um pouco antes. Andava do lado de fora da base, observando as estrelas, ou algo mais...Scunny chegou por trás dele., que percebeu e se virou:
_ Acabou seus "trabalhinhos"?
_ Sim. E já tenho minhas teorias.
_ Você?!
_ Sim, mas preciso examinar o bebê, que sobreviveu a tudo isso.
_ Amanhã nós resolveremos isso. Precisamos investigar os barcos que estão no porto também, mas agora eu quero dormir um pouco. Vamos para o nosso quarto...
_ Já estava mesmo na hora.
VI
Base de Savannah, Geórgia _ 9:00am
_ Os resultados dos exames pedidos já foram entregues.
_ Obrigado , oficial. Só estamos esperando os agentes Dara e Nox para analisá-los.
_ Mas senhor, essa análise não pode demorar muito mais.
_ Calma. Está tudo sobre controle. Hoje mesmo teremos nossas conclusões.
_ Sim, senhor.
VII
Motel Savannah _ 8:00am
Os agentes do FBI já haviam se levantado e tomavam café no bar do motel. Conversavam sobre o que já sabiam do caso.
_ Eu só terei conclusões exatas sobre a causa da morte dessas pessoas depois da análise dos exames, mas tenho certeza que foi algum tipo de vingança.
_ Por que? Não há nenhuma ligação entre as pessoas que foram mortas. Além disso eles não são os primeiros a morrer dessa maneira aqui na cidade esse ano.
_ Quer dizer que mais pessoas já morreram? E por que só agora nos chamaram?
_ No início a situação não era tão preocupante. Acreditavam que a causa das mortes era afogamento ou até suicídio, mas a população está alarmada agora. Eles não queriam chamar atenção.
_ Então isso descarta a possibilidade de alguma vingança pessoal. Mesmo assim, tenho certeza de que alguém da cidade está por trás de tudo isso.
_ Ou alguém do governo...
_ Como?!
_ A cidade de Savannah já serviu, várias vezes, como local de teste de novas armas bioquímicas criadas pelo governo americano, mesmo sem o conhecimento da população. Às vezes anunciavam campanhas de vacinação es exames gratuitos, com intenção de realizar esses testes.
_ Vamos até a base, então. Temos muito o que fazer.
_ Eles já devem ter mandado um carro nos pegar.
_ Está lá fora.
_ Os dois saíram do pequeno bar onde se encontravam e entraram no carro. Depois de uns minutos já se encontravam no seu "local de trabalho". Foram recebidos pelo capitão Regie:
_ Bom dia, agentes. Esperávamos vocês para reiniciarmos os nossos trabalhos.
_ Então, estamos aqui. Podemos começar.
Caminharam até uma sala pequena onde encontravam-se os resultados dos testes feitos na noite anterior. Scunny analisou-os, todos, um por um, com bastante atenção e calma.
_ Por esses exames posso apenas afirmar que havia sim alguma substância ou organismo estranho no alimento ingerido pelos mortos, mas não dá para concluir o que é. Os exames não revelaram nenhuma substância conhecida. Mais exames especializados terão que ser feitos com as amostras para chegarmos a alguma conclusão.
_ Nós já tomamos essa providência. O laboratório da base foi equipado para realizar todo tipo de exame.
_ Precisamos olhar os barcos dessas pessoas! Podemos encontrar alguma pista_ disse Ruldem a sua parceira.
Virando-se para o capitão ela falou:
_ Você poderia levar mau parceiro até onde estão sendo guardados os barcos dos mortos?
_ Sim, agora mesmo.
_ Eu preciso ver o bebê que sobreviveu à tragédia. Irei examiná-lo para conferir se ele não contraiu a doença.
_ O bebê está sob tutela do governo e foi levado a uma casa de voluntários. Ele ficará lá até que o caso seja encerrado, depois será colocado em um orfanato, para doação.
_ A casa em que ele se encontra é muito distante daqui?
_ Não. Um dos nossos oficiais pode levá-la lá agora mesmo.
_ Então vamos.
Os agentes se separaram. Ruldem foi até o cais onde estavam os barcos.Precisava analisar tudo lá. Sua parceira foi até a casa da senhora Alda que hospedava o bebê.
VIII
Cais do porto _ 11:30 am
Os barcos estavam sendo vigiados por dois homens armados. Ninguém havia tido acesso a eles desde o resgate. Depois de identificar-se, Nox entrou no primeiro barco _ o dos mergulhadores_ e começou a vasculhar tudo. Encontro equipamentos de mergulho, pesquisas variadas, roupas, nada suspeito. O barco era pequeno. Tinha dois pequenos quartos, ocupados pelos objetos pessoais dos homens; um banheiro e uma pequena cozinha. Ele dirigiu-se para a cozinha depois de ter passado pelos dois quartos. OS armários estavam vazios. Havia apenas água na geladeira e uma pequena caixa de enlatados, que deva ser o único alimento dos mergulhadores. No lixo, apenas papéis e latas vazias.
O outro barco, da família Richardson, fora encontrado em péssimas condições. Parecia ter passado por uma tempestade durante a viagem. Um dos quartos estava bastante úmido. O outro parecia ter sido mantido fechado. O primeiro foi onde encontraram os corpos e no segundo o bebê, sozinho.
Nada havia no barco além dos objetos pessoais da família, as pesquisas que eles realizavam e os equipamentos do barco, mas algo havia chamado a atenção do agente. No lixo havia também latas de alimentos como no primeiro barco. Ele pegou uma delas e voltou ao barco dos mergulhadores. As latas eram do mesmo produto e ambas tinham pequenos furos no fundo. Isso podia significar que os alimentos tinham mesmo algo a ver com a morte daquelas pessoas. No mesmo momento ligou para sua parceira para contá-la o que havia encontrado...
IX
Fazenda "Rancho Novo" _ 11:40 am.
Um dos oficiais levou Dara até a casa onde se encontrava o bebê. Era uma fazenda nas proximidades da cidade. Ela chegou à porta e tocou a campainha. Uma senhora idosa atendeu:
_ Bom dia, o que deseja?
_ Eu sou a agente federal Dara Scunny do FBI e estou aqui a procura de Nathan, o bebê que a senhora abriga.
_ Sim, o pequenino que chegou ontem. Ele está lá em cima com as outras crianças que aqui vivem. Sabe como é , né? O governo coloca-as aqui e só com o encerramento dos casos elas podem ser adotadas, mas muitos casos continuam pendentes por muito tempo.
_ Quantas crianças você tem aqui no momento?_ perguntou a agente, já dentro de casa.
_ No momento, apenas três. Uma garota de 10 anos, Lilie , um garotinho de 5, Adam e o pequeno Nathan.
_ Você cuida deles sozinha?
_ Não. Minha única filha legítima mora comigo e me ajuda. Você aceita comer alguma coisa? Eu já ia servir o almoço das crianças.
_ Me desculpe. Espero não estar incomodando. Não quero nada, obrigada.
_ Vou levá-la até o quarto das crianças para que você possa olhar o pequenino. Você vai precisar levá-lo daqui?
_ Espero que não. Só preciso examiná-lo para ver se ele não foi contaminado com o que matou sua família.
_ Coitadinho. Tudo bem. Por aqui._ disse a senhora, indicando a escada para que Dara subisse. Chegaram a um corredor e a senhora pediu que ela entrasse na porta à direita. Nathan estava deitado num pequeno berço rosa. Scunny retirou-o de lá e examinou-o ali mesmo. Ele parecia muito bem. Não havia mesmo contraído a doença. A mulher afirmou que ele fora encontrado com febre e frio, mas tudo por causa das condições em que ele estava no barco: sem alimento e amparo.
Neste momento o celular da agente tocou.
_ Scunny?
_ Sim ,Nox.
_ Tenho novidades para você! Indo você está?
_ Calma! Estou na casa onde está o bebê.
_ Como ele está?
_ Bem. Com certeza não contraiu a doença.
_ Eu sei o porquê.
_ Como?!
_ Venha até aqui que eu explicarei a você.
_ Já estou indo_ desligou o telefone e voltou-se para a senhora:
_ Muito obrigada e desculpe pelo incômodo. Se Nathan apresentar qualquer problema me contate neste número.
Entregou um pequeno cartão a Alda e deixou a casa. Foi direto à base encontrar com Ruldem. Ao chegar ele já se encontrava do lado de fora, esperando-a
_ Oi, querida.
_ Deixe de ironias e me conte o que você encontrou naqueles barcos.
_ É algo muito simples. Vasculhei tudo por lá, até que encontrei isso.
_ Uma lata de comida?
_ Isso mesmo. Em ambos os barcos havia latas dessa . Tanto abertas quanto fechadas. Peguei algumas e já mandei para o laboratório e os testes já chegaram..
_ Por isso você disse sabia porque o bebê não havia morrido! Ele não comeu da comida enlatada...
_ Isso, minha parceira. Os exames comprovaram que a substância encontrada no organismo das pessoas está presente também na comida enlatada.
_ Já têm alguma pista do que seja essa coisa?
_ Eles não, mas eu sim. Investiguei sobre os testes que o governo vinha fazendo aqui na cidade alguns anos atrás. Descobri o que pretendiam eles.
_ Como você fez isso?
_ Eu tenho minhas fontes...O governo estava trabalhando na criação de um novo tipo de vírus capaz de paralisar uma pessoa por um grande tempo, sem matá-la. Serviria para controle biológico da população ou até como arma de guerra. Mas parece que os experimentos não estavam tendo bons resultados e os orpinixomixovírus acabavam matando as pessoas, ao invés de apenas imobilizá-las.
_ Eles continuaram até hoje com essas experiências?
_ Não. No momento em que tudo começou a dar errado o governo suspendeu as verbas do projeto, desempregando os cientistas que trabalhavam nas pesquisas. Esses cientistas, por conta própria, parecem ter continuado com as pesquisas. Eles perderam o controle da sua "criação".
_ Você tem idéia de onde se encontram esses cientistas?
_ Pelas informações que obtive, apenas um deles ainda está vivo, mas foge do governo e ninguém sabe onde está.
_ Mas como esse vírus foi parar dentro dos enlatados? Eles não sobreviveriam ali por muito tempo.
_ A minha teoria é que esse cientista está mais perto do que nós imaginamos. E está tentando se livrar de seus orpinixomixovírus. Depois de várias mutações ele parece ter conseguido criar condições para sobreviver independente de qualquer célula.
_ Isso é impossível!
_ Não quando estamos falando de biotecnologia avançada. Nosso governo tem conhecimentos científicos muito mais avançados que os nossos. Os orpinixomixovírus necessitam apenas de água e sais para a sua sobrevivência, por isso resistiram dentro das latas e contaminaram essas pessoas.
_ Por que esse cientista contaminaria essas pessoas?
_ Falta de cobaias. Ele não tinha em quem testar seus vírus. Podia estar tentando também esconder sua criação.
_ Você trabalhou na minha ausência, hein? Temos que encontrar esse cientista. Você ao menos tem o nome dele?
_ Sim. Robert Brow. Vamos almoçar enquanto as pesquisas telefônicas que eu pedi não ficam prontas.
_ Vamos.
Deixaram a base e foram até um restaurante no centro da cidade. Almoçariam ali e depois voltariam ao trabalho. No momento em que entraram todos olharam. Não eram conhecidos ali. Um homem que estava atrás do balcão se dirigiu até uma porta nos fundos do estabelecimento, enquanto uma garçonete veio atender os agentes. O homem fôra até o telefone:
_ Senhor, eles estão aqui.
<pausa>
_ Sim. Tomaremos essas providências.
<pausa>
_ Acabaremos com isso agora. _ desligou o aparelho e voltou ao balcão como se nada houvesse acontecido.
_ O que desejam?
_ Eu vou querer um suco de laranja e uma salada de batatas. E você, Nox?
_ Um bife bem acebolado, por favor. E uma Coca.
_ Aguardem um pouquinho.
Sentaram-se em uma pequena mesa perto da parede e logo almoçaram.
X
Porto de Savannah _ 12:40 pm
Os dois homens que guardavam os barcos não agüentavam mais ficar de pé ali. Resolveram sentar-se em um dos bancos do cais. Por isso não perceberam o vulto que invadia os barcos. Ele procurava por algumas caixas que, ao encontrar, levou dali sem ser visto. Os oficiais receberam uma mensagem de deixar o local imediatamente e saíram de perto dos barcos, mas o homem já havia retirado tudo que podia incriminá-lo dali. Os barcos foram deixados ao abandono.
XI
_ Vamos, Scunny.
_ Sim.
_ Tenho alguns possíveis endereços do nosso cientista.
Rodaram toda a cidade. Procuraram em todos os endereços que possuíam, mas não haviam encontrado ainda o Dr Brow. Tinham ainda que ir até um bairro afastado, onde morava um senhor idoso que se encaixava na descrição do cientista.
Bateram na porta do casebre. Ninguém atendeu, mas uma sombra apareceu à janela, mas não abriu a porta. Ruldem havia decidido ir até o quintal e viu o homem sair em disparada pela floresta. Persegui-o até que ele desapareceu no meio de alguns arbustos.
Nox voltou até a casa onde Scunny já havia vasculhado tudo por dentro. Aquele era o homem que procuravam, ou ao menos parecia ser. Dentro da casa não havia nada que levasse a crer que aquele homem era um cientista.
Os agentes resolveram voltar à base para saber as novidades. Enquanto isso, Robert havia se escondido em seu laboratório subterrâneo, conseguindo fugir daquelas pessoas. Ouviu alguns ruídos sobre a sua cabeça, mas não tinha a mínima idéia de o que o esperava.
Os oficiais haviam recebido ordem de exterminar o cientista e todas as suas pesquisas para que nenhum vestígio dos experimentos fosse encontrado. No silêncio da fazenda ouviu-se apenas um tiro e depois avistou-se a fumaça que saia do chão, no pequeno laboratório do homem.
XII
Porto de Savannah _ 2:30 pm
Os agentes haviam voltado à base , mas nada encontraram lá. Não havia mais base! Os oficiais que vigiavam os barcos já não estavam lá e os barcos haviam sido saqueados. Eles haviam perdido todas as suas provas. Não tinham mais o que fazer ali. Foram até o motel para pegar suas coisas e voltar para Washington.
O atendente do motel, no momento em que os viu deixar seu estabelecimento, correu ao telefone:
_ Chefe, missão cumprida. Não há vestígio de qualquer experiência ou crime cometidos aqui.
<bom trabalho agente>
XIII
Washington D.C. _ 5:00 pm
O silêncio foi total durante a viagem. Dara e Nox não se comunicavam nem com monossílabos. Ao descer no aeroporto, Nox disse:
_ Gostou do passeio?
_ Você está tentando me alegrar novamente?
_ Tenho certeza de que o próprio FBI tem a ver com tudo o que aconteceu conosco.
_ Mais um dos grandes enigmas a que nós não temos acesso.
_ Não sei por que insistem em no s pagar. Eles nos usam a todo tempo.
_ O que nós colocaremos no relatório?
_ O que realmente aconteceu. Nos envolvemos com experimentos do governo. Pessoas inocentes morreram.
_ Nós não temos provas disso.
_ Como sempre...
Voltaram ao Bureau. O relatório entregue ao diretor não possuía nenhuma conclusão exata sobre o caso. Nada sobre os experimentos governamentais devido à falta de provas. O caso foi, assim como vários outros, arquivado nos diretórios do FBI.
FIM
PMF/ 24-06-98