LUZINHAS

Nebraska – 3:30 a.m.

Sábado – 13/12/98

Uma madrugada fria de inverno. Sobrevoando um bosque, uma luz insistia em vasculhar todos os locais, aquilo era estranho e diferente, mas quem daria importância? Eram 3:30 da madrugada, e só o que havia da estranho era aquela luz e um leve zumbido que a acompanhava, de qualquer forma o zumbido não seria escutado por ninguém, a cidade mais próxima ficava à alguns quilômetros dali.

De repente a luz parou num ponto, havia algo caído entre as árvores, desceu um pouco e ficou imóvel. Alguns minutos depois deixava descer por uma corda um de seus tripulantes, por um instante um vento forte bateu, sacudindo corda de um lado para o outro como um brinquedo até arrebentar e fazer o vulto cair de uma altura considerável para tocar o chão e morrer na mesma hora. Ele ainda bateu nos galhos e só parou ao atingir o chão bem ao lado do que a luz procurava, outra corda foi descida e o objeto retirado do seu esconderijo cuidadosamente. A luz se apagou e o zumbido começou a ficar cada vez mais longe...

Quem estivesse a bordo daquela luz pensaria que tudo tinha sido feito como foi planejado, e nem mesmo uma morte foi capaz de atrasar a operação. O que estavam procurando foi achado, recolhido e o próximo passo era levá-lo aos mandantes da busca.

* * *

Duas bicicletas corriam pelas trilhas do bosque, Jake e Claire estavam aproveitando a manhã para se exercitar. Cada vez mais no meio do bosque os dois se divertiam sem problemas até que Jake freou fazendo a bicicleta derrapar. Ele arregalou os olhos e soltou a bicicleta .

_ Não venha para cá! – gritou para Claire que vinha logo atrás.

_ O que foi?

_ Nada, v-vamos sair daqui...

_ Porque?

_ V-vamos embora! É melhor você não ver isso... – disse ele colocando a mão nos olhos dela.

_ Ora Jake! Eu já sou bem grande! O que é? Um sapo sem cabeça?

_ Pior! Vamos logo! – disse ele empurrando Claire para longe dali.

_ Tire as mãos dos meus olhos que eu quero ver! – Claire empurrou o amigo para o lado, olhou em volta e percebeu porque Jake estava tão nervoso. Um corpo caído no chão completamente quebrado, como um boneco de pano e disforme, o rosto roxo e inchado, vestia uma roupa preta muito parecida com as do exército. Ao redor a grama estava toda queimada, a copa de algumas árvores também, alguns animais pareciam ter sido queimados vivos e estavam caídos.

_ Vamos sair daqui antes que algo aconteça com a gente...

* * *

Washington D.C. – 1:00 p.m.

Domingo 14/12/98

Max Lumder estava sentado na cadeira de seu escritório no subsolo do prédio do F.B.I., com os pés apoiados na mesa, a gravata frouxa e o paletó no espaldar da cadeira giratória. Nas mãos ele tinha algumas fotos e as observava atentamente quando sua parceira entrou na sala.

_ Por que me chamou Lumder?

_ Temos um caso interessante aqui.

Os dois trabalhavam numa sessão do Bureau que solucionava casos estranhos denominados Arquivos - X. Ele, Max Lumder, dizia ter sido abduzido por alienígenas junto com sua irmã e depois de passar pela sessão de crimes violentos do Bureau, Lumder esbarrou nos Arquivos - X e numa série de mistérios que ele nem imaginava mas que também não desacreditava. Sua parceira, a médica legista Debra Scaller, uma agente que se juntara à ele a mando de homens da alta cúpula do F.B.I. Homens nem sempre muito conhecidos mas muito temidos, que tinham um certo interesse no trabalho que Lumder vinha fazendo nos Arquivos - X. Ela era o tipo de mulher que só acredita vendo e mesmo trabalhando com o "estranho Max" durante três anos, ela ainda se surpreendia com o que via e ouvia. Os dois tinham fatos que mostravam que uma conspiração mundial estava sendo feita, mas eram tão misteriosas e envolviam tantos fatos que era quase impossível juntar todas as peças do quebra-cabeça.

_ O que é?

_ Dê uma olhada nisso. – Lumder passou as fotos para a parceira. Ela as olhou por um instante, eram fotos de um local que tinha sido queimado de alguma forma, animais e plantas estavam mortos dentro de alguns metros de cinzas.

_ O que é isso? – perguntou Debra.

_ Parece radiação, não? Bem, esta foto foi tirada em Nebraska.

_ Sei, mas não precisa ser necessariamente radiação, pode ser apenas alguém tentando chamar a atenção. – disse Scaller com ceticismo e passando para a próxima foto.

_ Este é o cadáver que foi encontrado por dois jovens no local do acontecimento. – antecipou Lumder.

_ Não parece ter sido queimado... – observou Debra.

_ O que você acha que causou esta morte?

_ Não sei. Eu teria ter que fazer a autópsia para ter certeza.

_ Ótimo. Ainda bem que você já sabe que vai ter que fazer uma autópsia.

_ O quê?

_ Estamos indo para Nebraska hoje às 5:00 da tarde.

_ Nem pensar Lumder, amanhã estou de folga!

_ Melhor ainda, você não vai precisar perder um dia de trabalho.

_ Só você mesmo Lumder!

* * *

Nebraska – 5:00 p.m.

Segunda-feira

A polícia tinha cercado o local ao redor das cinzas, os animais tinham sido retirados para esperar por uma autópsia e exames, o cadáver estava coberto por plástico preto e já ia sendo colocado dentro do carro do corpo de bombeiros. Os curiosos chegavam e os dois jovens tinham sido levados para a delegacia para interrogatório.

Claire estava na sala de interrogatório. Muito diferente do que esperava, era um sala sem decoração com uma mesa e 4 cadeiras, bem limpa e iluminada. Podia-se dizer que ela era até simpática, e tão simpática quanto a sala era o policial gordo e de bochechas rosadas que a interrogava, seu nome era David Corneill, Sargento Corneill para os oficiais.

_ Muito bem Claire, quero que você me conte tudo o que viu e aconteceu.

_ Cadê o Jake?

_ O interrogatório vai ser feito em separado.

_ Tá bom. Vou contar tudo. – e contou toda a história.

_ Veja, nós desconfiamos que seja alguém querendo chamar a atenção ou fazendo algum tipo ritual.

Você tem alguma idéia de quem poderia fazer isso?

_ Não, Sr.

_ Tem certeza?

_ Tenho sim, Sr.

_ Tudo bem, vá para casa e fique calma tudo isso vai terminar muito bem.

* * *

Os agentes do F.B.I, foram levados à um hotel pelo Sargento Corneill que os apanhara no aeroporto de Lincoln. A cidade era pequena e longe de tudo, - perfeita para mistérios - pensava Lumder olhando as casas pelo vidro da viatura.

_ Amanhã cedo, eu passo aqui para vocês verem o local do incidente. – avisou o Sargento sem muita felicidade.

_ Muito obrigada. – agradeceu Scaller.

_ E quanto ao corpo? – quis saber Lumder.

_ Ninguém tocou nele. Está esperando pela autópsia.

_ Ótimo.

_ Se vocês quiserem eu posso levá-los até o necrotério.

Scaller encarou o parceiro.

_ Tudo bem, vamos. – concluiu Lumder

Começava a anoitecer. O necrotério já havia fechado e só quem estava lá dentro era a recepcionista e o Dr. Müller prontos para trancarem tudo.

_ Sargento Corneill. Como vai? - cumprimentou o Dr.

_ Olá, Dr. Müller. Trouxe os federais para verem o corpo.

_ Sem problemas, aqui estão as chaves. – o Dr. passou um chaveiro ao sargento. – É a gaveta número 13. Podem usar todos os aparelhos, qualquer problemas é só me ligar...

O sargento agradeceu e levou Scaller até a sala de autópsias. Lumder ficou na recepção sentado num dos sofás. Chegando na sala ela tirou o corpo da gaveta, pediu para que o sargento saísse, ligou um gravador e começou:

_ Homem... 23 anos... identificado como Jack Suthler... recruta do exército, órfão, dado como morto a alguns meses depois de desaparecer... começando autópsia externa... corpo com várias escoriações, hematomas e fraturas. Começando autópsia externa... – Scaller abriu o cadáver na altura da barriga – parece que a vítima morreu de hemorragia interna causada por perfuração dos órgãos internos... ele provavelmente caiu de uma altura grande...

Na recepção Lumder lia um jornal de quinta-feira, enquanto o sargento Corneill cantarolava uma música dos anos 60. De repente Lumder colocou o jornal no bolso do sobretudo, se levantou, pegou o telefone celular, discou e foi caminhando até a sala de autópsias. Não foi necessário nem que batesse na porta, Scaller já vinha saindo com o parecer medico.

_ Peça exames tóxicológicos e tudo mais que você puder. – falou o parceiro antes que ela abrisse a boca para falar alguma coisa.

_ Lumder, os exames são dispensáveis. Pelo que eu vi, este rapaz morreu de hemorragia interna porque caiu de algum lugar alto demais.

_ Faça isso por mim. – pediu ele.

_ Faço, mas os exames não acusarão nada, ouça o que eu digo... – Scaller voltou para a sala e tirou as amostras necessárias e entregou ao sargento. – Mande para o melhor laboratório da capital.

Enquanto isso Lumder já estava no final do corredor falando no celular.

_ Vamos para o hotel, Scaller. – disse depois de desligar - Amanhã vamos ter um dia longo.

_ Por que você pediu os exames?

_ Porque por mim, aquilo foi radiação. E se o rapaz foi mesmo infectado, ele confirma minha suspeita.

_ Que suspeita?

_ Quando tiver mais detalhes eu te digo o que é. - E virando-se para o sargento perguntou - Posso ver as roupas do garoto?

_ Claro, amanhã vocês podem passar na delegacia, elas estão lá.

Os três saíram do necrotério e se dirigiram à viatura do sargento, de repente alguém puxou Scaller pelo braço e colocou uma faca em seu pescoço. Lumder reagiu instantaneamente puxando sua glock do coldre e mirando na cabeça do desconhecido. Scaller permaneceu imóvel enquanto a pessoa começava a falar. Era uma voz de homem claramente bêbado.

_ Vocês são os federais? – perguntou ele

_ Edward, largue a moça. – pediu o sargento como se já conhecesse o homem.

_ Não, só assim vocês vão me escutar!

_ A gente vai te escutar sim Edward, agora, me solte. – interferiu Scaller.

_ Ei... Edward, não é? – começou Lumder com voz calma como se falasse como uma criança – Nós somos os federais sim, o que você quer falar com a gente?

_ Eu... eu sei o que... que fez aquilo... lá no bosque... eu vi!

_ E o que foi Ed? – perguntou Lumder – Posso te chamar de Ed?

_ P-pode.

_ Então o que fez aquilo?

_ Foi uma luz, Uma luz q-que veio de lá! – e apontou para o céu esquecendo Scaller – Ela... ela cortou o céu! E caiu no bosque. Eu fui lá perto olhar mas quando eu estava chegando... veio uma outra luz... e levou ela embora.

_ Da onde você tirou uma idéia dessas?! – perguntou o sargento Corneill.

_ Eu vi! Eu vi! E eles... eles me viram também! Estão atrás de mim!

_Como assim Ed? – perguntou Lumder – Eles quem?

_ Os homens de preto!

_ Quem?! – perguntou Lumder com uma ponta de dúvida.

_ Os homens de preto! Eles me viram lá! Me procuraram! Reviraram meu barraco atrás de mim! Eles sabem que eu vi! – gritou ele tremendo de medo e olhando para os lados.

_ E o que você viu? Me diga todos os detalhes Ed.

_ Só se você me pagar "umas"

_ Não.

_ Então não conto.

_ Tudo bem Ed, eu te pago "umas". Sargento Corneill você pode levar a agente Scaller para o hotel? Eu vou mais tarde.

_ Mas...

_ Pode?

_ Tudo bem, faça o que quiser. Vamos agente Scaller.

O sargento abriu a porta do carro, Scaller entrou e logo depois eles saíram.

_ Você vai me proteger, não vai? – perguntou Edward olhando para os lados desconfiado.

_ Vou. Agora me conte o que houve naquele dia.

_ Sabe, a luz era tão bonita. Ela cortou os céus e caiu no bosque e eu fui olhar de perto. Mas aí veio uma outra luz junto com um zumbido gostoso e um ventinho... e levou a minha luzinha embora e deixou aquele homem de preto morto lá... eu quero minha luzinha de volta!

_ Eu sei, eu sei. Vamos logo para um bar e você me diz tudo sobre essa tal luzinha.

* * *

Os dois agentes se encontraram no hall do hotel.

_ Dormiu com os anjos Lumder? – perguntou Scaller vendo que seu parceiro não tinha dormido nada aquela noite.

_ Posso ter dormido com tudo, menos com os anjos.

_ Dá para perceber que o tal Edward te deu trabalho.

_ Com certeza.

Uma viatura da polícia na porta do modesto hotel e buzinou.

_ Nossa carona Scaller.

_ O que o tal bêbado te falou?

_Que uma luz caiu no bosque, ele foi ver de perto, era algo metálico envolto em algum tipo de tecido ou coisa do gênero. Então outra luz que tinha um zumbido e um vento pegou essa peça metálica e foi embora. O rapaz morto parece ter vindo de dentro da segunda luz.

_ Você não acredita nisso, acredita?

_ Talvez..

Scaller respirou fundo. Aquele "talvez" de Lumder normalmente dizia que ele estava escondendo ou tramando algo.

* * *

No local do acidente, tudo estava cercado por faixas da polícia que isolavam a área dos curiosos.

_ O que você acha? – perguntou Lumder à Scaller

_ Não sei. Pode ser desde um ritual até radiação, o que é menos provável. Vamos ter que pedir algumas análises.

_ Ah, eu sabia! Scaller pegue as amostras, eu vou checar as roupas do garoto morto.

_ Tá bem.

_ Scaller, me diga uma coisa: se você mandar essas amostras hoje, quando elas vão estar prontas?

_ Talvez daqui a uns 4 dias.

_ Droga! Demora muito, mas tudo bem, mande-as mesmo assim. Até logo Scaller.

_ Tchau!

* * *

_ Aqui está, Sr. Lumder – disse um guarda entregando uma caixa com as roupas de Jack Suthler para ele.

Lumder calçou as luvas e pegou a primeira peça, um macacão muito parecido com os usados pelo exército, sendo todo preto com uma insígnia vermelha com um triângulo preto sobre ela no braço direito. Ele analisou o emblema com muito cuidado e depois olhou o resto das roupas, coturnos e um boné preto. Tentou se lembrar de algum grupo do governo que usasse aquela roupa mas não conseguiu se lembrar. Pegou o celular e discou o mesmo número que discara no necrotério. Falou durante alguns minutos e desligou. Depois ligou para Scaller.

_ Scaller. – atendeu ela.

_ Você pode vir para cá?

_ Posso Lumder, mas você...

_ Ótimo, venha para cá agora. – interrompeu ele.

30 minutos depois Scaller examinava as roupas de Jack.

_ O que você acha? – perguntou Lumder.

_ Uniforme de algum grupo terrorista?

_ Não, uma entidade do governo que é mantida em sigilo absoluto.

Scaller encarou o parceiro com ar de reprovação e questionamento.

_ Scaller, para você o que é aquilo?

_ Qualquer coisa menos radiação.

_ Como assim?

_ Enquanto eu olhava o local chegou em minhas mãos um exame que comprova que aquilo foi provocado por calor.

_ Quem mandou fazer esse exame?

_ O prefeito Howard Canfull.

_ O prefeito? Porquê?

_ Porque ele estava sendo pressionado pela imprensa.

Alguns minutos se passaram com os dois em silêncio.

_ Agora você me diz Lumder, o que você acha que é aquilo?

Ele encostou na cadeira com ar pensativo e suspirou.

_ Vou contar. O tal bêbado me disse sobre as luzes, que uma caiu e a outra veio apanhá-la e tinha um vento e um leve zumbido.

_ Você já me disse isso.

_ Ele disse também que homens de preto foram fuçar na casa dele e descreveu exatamente este uniforme, com o símbolo e tudo.

_ E daí?

Ele fez uma pausa para rearrumar as idéias.

_ Você disse que aquilo foi feito por calor?

_ Certo.

_ Como eu fui bobo! Isto confirma tudo!

_ Tudo o quê, Lumder?

_ Scaller, esqueça o radiação. Você acreditaria se eu dissesse que isso poderia ter sido causado por uma sonda espacial?

_ Não.

Lumder não se deu por vencido e Scaller percebeu que ele não a deixaria me paz enquanto tudo aquilo não fosse resolvido

_ Scaller, pense comigo. O que você sabe sobre o programa espacial Soul?

_ Claro, deu no jornal. É um programa que enviou um robô para verificar se há mesmo água na lua. Pelo que eu li, é um robô chamado Aurora.

_ Bom. O que mais?

_ Só isso.

_ Isso não é tudo. Mais um robô foi mandado o Angel. E sabe o que mais? Minhas fontes disseram que a expedição deveria terminar daqui há um mês.

_ Vá direto ao ponto.

_ Veja isto. – Lumder tirou uma folha de jornal amassada do bolso do sobretudo – Aí diz que a nave Aurora voltou antes do tempo para a Terra por problemas técnicos.

Scaller entendeu onde o parceiro queria chegar.

_ E você acha que o outro robô caiu aqui, em Nebraska? Como?

_ Você vai me dizer que não sabia que tem uma base da Força Aérea aqui em Nebraska? A cápsula provavelmente errou a rota e caiu no lugar errado.

_ Você quer me convencer disso?!

_ É que eu estou tentando fazer... – Lumder pegou fôlego para continuar - A tal luzinha que Edward disse que viu poderia ter sido a capsula fora de controle e a peça metálica envolta em tecido, a carcaça da sonda enrolada nos pára-quedas especiais.

_ E a segunda luz?

_ Um helicóptero.

_ O que Lumder?

_ Um helicóptero especial, negro e com abafadores nas hélices para diminuir o barulho.

_ Por isso o vento e o zumbido que o bêbado tanto falou. – concluiu Scaller.

_ Você entendeu, parceira.

_ Mas Lumder, porque mais uma nave e porque trazê-las antes?

_ Porque mais uma nave eu não sei, mas parece que elas descobriram algo novo e inesperado na água da Lua.

_ O quê?

_ Um vírus talvez.

_ Um vírus?! Francamente Lumder!

_ Eu só estou esperando os exames para ver se Jack Suthler foi infectado ou não.

_ E o que fazemos até lá?

_ Cuidamos de Edward.

_ Do bêbado?! Lumder!

_ Você só sabe dizer "Lumder!"?

_ Mas... mas.. isso é doideira!

_ Scaller, se isso tudo isso for verdade Edward está em perigo!
_ Isto está virando obsesssão!

_ Faça isso por mim!

_ Vou pensar no seu caso.

* * *

Scaller no fim de tudo acabou concordando com o parceiro, mas ela vigiaria Edward de longe, Lumder que ficaria ao lado dele. No fim de 3 dias, enquanto Scaller vigiava Edward sair de um bar junto com Lumder, os testes chegavam a mesa do Sargento Corneill.

Scaller deixou Edward na porta de sua humilde casa, ele saiu cambaleando do carro, Lumder desceu para ajudá-lo, ao mesmo tempo o celular de Scaller tocou. Era o sargento Corneill.

_ Senhorita Scaller?

_ Sim.

_ Os exames chegaram.

_ Ótimo! Estou a caminho. Obrigada.

_ Estarei esperando.

A agente desligou o telefone e pôs a cabeça para fora do carro.

_ Lumder – chamou – vamos, os exames chegaram!

Lumder soltou o bêbado na porta de casa e correu para o carro. Scaller arrancou para a delegacia.

* * *

Sargento Corneill entregou os exames à Scaller. No alto do envelope vinha escrito: Laboratórios McNamara de Análises Biológicas. Para Senhorita Debra Scaller. Ela abriu ansiosa, deu uma olhada profissional no papel e entregou ao parceiro.

_ Suas fontes erraram.

_ Quê?

_ Os exames não acusam nada, Jack Suthler morreu de hemorragia interna mesmo.

_ Não acredito!

_ Pode crer.

_ Mas...

_ Sinto muito Lumder...

_ É parece que o trabalho acaba aqui. – falou Corneill com um imperceptível sorriso de vitória.

_ E quanto ao Edward?

_ Quanto ao Edward? Ele é assim, inventa conspirações, diz que é mensageiro do diabo, escolhido por Deus. Podem ir sossegados que nós cuidamos dele.

_ Não.

_ Lumder, acho que o Sargento está certo. Vamos para D.C., nossa investigação acabou sem ser solucionada.

_ Não, nós vamos ficar aqui mais uns dias e ...

_ Lumder, acabou!

_ Scaller, tem algo errado nessa história!

_Não tem nada errado! Vamos voltar, o nosso diretor vem me ligando e mandando que voltemos o mais breve possível.

_ Posso dar uma sugestão? – perguntou Corneill

_ O que é? – perguntou Scaller.

_ Bem, é que desde o começo desse caso eu venho achando que aquilo era um ritual, e como Edward tinha essas manias de dizer que era mensageiro do diabo e esse tipo de coisa eu proponho que vocês investiguem a casa dele para ver se acham alguma coisa.

_ Ele não faria isso. – disse Lumder indignado.

_ Por que não? Todos nessa cidade sabem que ele é mentalmente perturbado. O que você acha senhorita Scaller?

_ Faz sentido, mas não sei se ele poderia ser capaz de fazer aquilo.

Scaller olhou o parceiro longamente e chegou à uma conclusão.

_ Mas acho que nós devemos olhar a casa dele.

_ Scaller...

_ Eu vou com vocês – avisou Corneill – pegando sua arma e levantando-se da cadeira e saindo, logo atrás iam os dois agentes do F.B.I.

* * *

A casa de Edward estava vazia. O silêncio era total. Os 3 entraram pela porta da frente cautelosamente, um cheiro de mofo fez Lumder espirrar. Scaller procurou um interruptor na parede ao seu lado. Quando a luz acendeu a primeira coisa que notaram eram páginas coladas nas paredes. Olhando de perto eram páginas da bíblia, todas falando sobre o Apocalipse, da besta, dos anjos...

_ Parece que sue amigo era capaz de fazer aquilo na mata sim. – falou Scaller.

O parceiro não respondeu, colocou a mão no coldre e virou para dentro de um quarto. Era o quarto de Edward, várias bíblias estavam no chão. De repente ele ouviu sua parceira chamar, correu até onde ela estava e aos seus pés estava o corpo de Edward inerte com um tiro que atravessou sua cabeça da direita para a esquerda e na sua mão uma Taurus.

_ Ele se matou. – concluiu o sargento.

_ Não faz sentido. – falou Lumder

_ Faz sim – começou Scaller – Edward tinha problemas mentais. Ele pode ter feito aquilo como meio de se proteger ou de chamar o diabo para perto de si. Jack Suthler estaria observando de uma árvore e caiu.

_ E a luz? – perguntou Lumder.

_ Delírio de pessoa mentalmente perturbada. Ele podia ter visto um cometa e imaginou o resto da história.

_ Scaller, você está tentando desbancar a minha teoria sobre a sonde na Base da Força Aérea?

_ Sondas da Base da Força Aérea? – cortou Corneill – A Base está fora de funcionamento há 10 anos.

Scaller olhou o parceiro com se dissesse: viu só? Eu estava certa!.

_ Vamos voltar para Washington, Lumder.

* * *

No seu escritório o sargento Corneill abria bem devagar um cadeado em uma de suas gavetas. De lá tirou um envelope branco escrito no topo: Laboratórios McNamara de análises biológicas. Para Senhorita Debra Scaller. Ele abriu cuidadosamente, olhou e pegou o telefone. Discou ansioso e esperou.

_ Quero falar com o chefe.

_ Corneill? – perguntou uma voz sinistra.

_ Olá chefe, fiz tudo que o senhor mandou.

_ Onde estão os agentes?

_ Em Washington. Caíram como patos.

_ O bêbado?

_ Morto.

_ Os exames?

_ Deram positivo.

_ Tragam eles aqui agora Corneill. Sua recompensa o aguarda.

Corneill desligou o telefone e com um sorriso e o pensamento numa alta recompensa. Pegou sua pick-up e dirigiu até a Base da Força Aérea.

* * *

A Base da Força Aérea tinha uma aparência terrível. Parecia mesmo abandonada a anos, mas tudo era fachada, e uma bela fachada. O governo investira milhões, talvez bilhões de dólares naquele empreendimento e também teve que "jogar sujo", tirar algumas vidas, comprar alguns oficiais... tudo para manter aquele lugar longe da curiosidade pública mas só conseguiram metade da meta, todos sabem que aquele lugar existe, só não sabem onde. Os galpões de mais ou menos dois andares foram esticados para baixo eram cinco andares abaixo do solo e um emaranhado de galerias e salas cheias de gente, profissionais de todas as áreas que vivem uma vida de sigilo absoluto debaixo de quilômetros de terra. Os entendidos chamariam aquele lugar de Área 51. O lugar mais secreto do globo.

* * *

" Conclusão do caso número 163.

Depois de concluirmos que a marca no chão do bosque foi feita por calor e que a vítima Jack Suthler morrera de hemorragia interna por causa da perfuração dos órgãos por ossos quebrados deduzimos que ele caíra de uma das árvores em volta do local do incidente e que ele observava o senhor Edward Cay Junior de 54 anos que, segundo o Sargento David Corneill era mentalmente perturbado e por inúmeras vezes se dissera escolhido por Deus e mensageiro do diabo, fazer algum tipo de ritual.

A pedido do Sargento Corneill depois do aprovação de meu parceiro, Max Lumder, nos dirigimos à casa do Sr. Edward e lá além de encontrarmos várias páginas da bíblia pregadas nas paredes encontramos o corpo de Edward Cay com um tiro de Taurus na cabeça.

O caso foi dado como encerrado e encontra-se nos arquivos na sala do Agente Max Lumder."

Era assim a conclusão do relatório feito pela Agente Debra Scaller que entregou ao seu diretor assim que chegou no prédio do F.B.I. Scaller não mencionou nada sobre a sonda e o provável funcionamento da Base da Força Aérea, também não tocou no assunto sobre o uniforme que a vítima usava e muito menos na teoria de Lumder sobre uma segunda nave no Projeto Espacial Soul e que na Lua poderia haver qualquer tipo de vírus.

O diretor deu-se por satisfeito com o relatório de Scaller e não quis nem ouvir o que o Agente Lumder teria a dizer, ele sabia que o agente falaria algo sobre paranormalidade, conspirações ou qualquer coisa inacreditável.

* * *

O sargento Corneill conhecia aquele lugar como a palma de sua mão. Parou a pick-up em frente ao portão de entrada, o metal parecia velho mas qualquer um que não fosse autorizado tentasse transpassá-la receberia uma descarga elétrica capaz de matar na hora, o portão se arrastou sozinho para o lado, tudo naquele lugar era monitorado e guardado, qualquer incidente faria soar o alarme contra invasores e estes seriam sumariamente eliminados. A pick-up ainda avançou alguns metros e parou em frente a um galpão, o Sargento desceu com o envelope nas mãos e ultrapassou a porta de entrada, no galpão nada havia de diferente apenas uma caixa com o símbolo de alta voltagem, abriu a portinha e apareceu automaticamente botões como os de um telefone, o Sargento digitou uma senha e uma porta falsa deslizou para o lado mostrando uma escada para o primeiro andar do subsolo.

Fazia calor embaixo de toda aquela terra, o ar era abafado e várias pessoas passavam sem dar a menor atenção ao Sargento. Chegou a uma porta com o mesmo mostrador com os números, digitou uma senha e entrou. A sala era cercada de computadores e monitores que mostravam toda a extensão da Base, no centro havia uma mesa comprida e sentado na cabeceira estava o chefe de tudo aquilo. Um homem de seus 50 anos vestido num terno de bom corte.

_ Bom dia chefe.

_ Vamos direto ao ponto Corneill. – disse o homem num tom seco. – Quero saber o que os federais descobriram e como você se saiu...

_ Bem, chefe fiz tudo que o Sr. mandou, colei as páginas das bíblias na parede de Edward, depois eu mesmo o matei e fiz com que ficasse parecendo um suicídio, disse que esta Base estava abandonada há anos e eles caíram. – o Sargento riu para espantar o nervosismo – Que achou?

_ Parece que foi um ótimo trabalho Corneill... agora deixe-me ver os exames...

Corneill olhou para o envelope.

_ E a minha recompensa?

_ Primeiro o envelope depois a recompensa.

_ Não. Você não vai me enganar. Quero meu dinheiro ou entrego os exames aos dois agentes!

O homem finalmente se levantou.

_ Corneill, eu quero o envelope.

_ E eu quero meu dinheiro! – gritou o Sargento.

O homem pôs a mão no bolso do paletó e tirou um cigarro, levou-o a boca e acendeu.

_ Se eu não tiver o envelope, você não tem o dinheiro...

_ E se eu não tiver meu dinheiro agora, você não vai nem sequer ler o nome do laboratório nesse envelope!

_ Corneill, vamos relembrar uma coisa. Quando você chegou aqui o que eu te falei? – continuou ele como se falasse com uma criança teimosa – Falei que quem mandava aqui era EU! Ou seja ou você faz o que eu mando ou você sofre as conseqüências...

_ Eu não tenho medo! Eu coloquei minha patente em risco para fazer o que você mandou e não vou ser deixado para trás sem o que me devem!

_ Corneill você está me deixando nervoso!

_ Estou pouco me importando com isso! Você não vai me dar o dinheiro?

_ Só depois que você me entregar os exames.

_ Sendo assim vou embora.

O Sargento virou as costas bufando e girou a maçaneta para sair mas a porta não abriu. Corneill ficou ainda mais nervoso.

_ Abra a porta! – berrou ele.

_ Não.

_ Como não?!

E virou para encarar o chefe mas foi surpreendido por uma arma que apontava para sua testa.

_ Você me deixou nervoso Corneill.

_ Desculpe chefe... eu...eu... me e-exaltei...

_ Os exames, por favor...

Corneill entregou o envelope com as mãos trêmulas.

_ E meu dinheiro?

_ Seu dinheiro?

Ele sacudiu a cabeça positivamente.

_ Ele está aqui... bem aqui.

O homem pegou uma sacola debaixo da mesa e a estendeu para Corneill. Mas antes que ele pudesse tocá-la um tiro atravessou sua cabeça manchando a porta de sangue. O Sargento caiu para trás pesadamente e uma mancha de sangue se fez ao redor de sua cabeça.

_ Na minha idade Corneill, nervosismo faz mal. – disse ele para o corpo.

O chefe recolocou a bolsa de baixo da mesa, apagou o cigarro no cinzeiro no centro da mesa, apertou um botão no console do computador ao seu lado, uma campainha soou e em menos de trinta segundos aparecia na porta da sala um soldado batendo continência, a ponta da sola quase tocava a cabeça de Corneill que morrera com uma terrível cara de espanto mas o soldado parecia não vê-lo.

_ Quero isso limpo em dez minutos ouviu bem? Tenho uma reunião com alguns velhos amigos...

_ Sim Sr.

O oficial virou as costas.

_ Ah! Mais uma coisa: traga-me um café.

O homem se sentou na cadeira, pôs os pés na mesa e com um sangue-frio assustador assistiu a retirada do cadáver. Quando todos saíram da sala e não sobrara mais nenhum respingo de sangue na porta nem no chão, ele comentou consigo mesmo após consultar o relógio.

_ Sete minutos... esses rapazes estão de parabéns... – esperou mais alguns segundos e terminou - Só esqueceram meu café...

FIM

Por: Mariana Bandeira Jannuzzi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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