Eram 7 horas da manhã quando o telefone tocou na casa de Mulder. Com voz de sono, ele atendeu:
-Alô?
-Mulder, é Skinner. Desculpa por ligar a essa hora. Acabo de ser informado que ontem de noite 9 pessoas e alguns animais foram encontrados mortos em uma fazenda próxima daqui. E o mais curioso é que os médicos legistas não conseguiram identificar a causa da morte. Gostaria que você tomasse o comando desse caso. Ligue para Scully e inicie a investigação o mais depressa possível.
-Pode deixar, senhor.
Mulder pegou o endereço da fazenda com Skinner e em seguida ligou para Scully e passou todas as informações para ela.
Mulder e Scully chegaram na fazenda em menos de duas horas, não era um território muito afastado. A área era bastante grande. Havia várias plantações, alguns animais e duas casas. A segunda era a do caseiro, que também foi encontrado morto. Alguns agentes do FBI e vários policiais haviam cercado a área.
-Agente Federal disse Mulder, mostrando seu distintivo.
Mulder e Scully andaram por toda a fazenda à procura de alguma pista. Mulder encontrou algumas pegadas que iam em direção à casa.
-Scully, dê uma olhada nisso aqui. Que espécie de animal deixaria pegadas como estas? Não conheço nenhuma.
-Uh, parece que eu já ouvi essa frase antes ( há cerca de 3 meses os agentes haviam investigado o caso dos Homens-Mariposa - Detour 5X04). Será essa criatura algum primo dos Homens-Mariposa? disse Scully, em tom de ironia.
Mulder ignorou a brincadeira.
-Scully, não há a menor dúvida de que são criaturas diferentes. Os Homens-Mariposa tinham um esconderijo, onde colocavam as vítimas, e atacavam de modo bem diferente. Nós ao menos sabemos como que essas pessoas foram mortas.
-Qual a origem das pegadas? perguntou Scully, agora em tom mais sério.
-Parece que elas vêm daquele mato ali. Acho melhor eu dar uma olhada.
Mulder e Max, um geólogo designado pelo FBI para ajudar no caso, se embrenharam no mato à procura de pistas.
Scully foi olhar os corpos dos animais mortos e não encontrou nenhuma marca ou sinal de luta no corpo.
-Muito estranho... disse ela para si mesma.
Enquanto isso, Mulder vasculhou todo aquele pedaço de terra em busca de mais alguma pegada, ou qualquer outra pista, mas não encontrou nada. As pegadas ficaram muito confusas quando entraram na mata.
-Agente Mulder, essa área não é muito grande. Seja qual tenha sido a criatura que deixou essas pegadas, ela não está mais aqui, ou então está muito bem escondida. disse Max.
Mulder resolveu então voltar para ver se Scully tinha encontrado algo.
-Mulder , disse ela, não há nada nos corpos dos animais. Agora eu gostaria de dar uma olhada nos corpos das pessoas. Tenho que encontrar alguma resposta, uma explicação lógica para tudo isso.
-Então vamos para o hospital para onde foram levados os corpos. Por aqui acho que não vamos encontrar mais nada. Mulder disse isso e já foi se dirigindo para o carro.
Antes de chegar no Hospital, que era um pouco longe, os dois pararam em uma lanchonete. Já era quase meio-dia e nenhum deles havia comido nada desde manhã.
Ao chegar no hospital, Scully leu o relatório da autópsia.
-Mulder, veja isso. Aqui fala que os médicos encontraram uma substância estranha em todos os corpos. Ela apareceu no exame toxicológico. Nenhum dos médicos conseguiu identificá-la.
-Você acha que se fizer a autópsia pode descobrir o que é isso?
-Não sei, melhor tentar, disse Scully.
-Com licença, disse ela dirigindo se ao médico-chefe do departamento. Gostaria de examinar algum desses corpos. Sou Agente Federal e fui designada para solucionar o caso.
-Pode examinar. Nenhum dos meus médicos identificou a causa da morte. A única coisa encontrada foi uma substância desconhecida. O relatório da autópsia está incompleto, como você pôde perceber. disse o médico.
Scully pôs as luvas e começou o exame. Não encontrou nenhuma marca ou sinal de luta. E também não conseguiu identificar a substância.
-Mulder, me parece que o que aconteceu foi que o sangue parou de circular ao entrar em contato com essa substância. Mas não tenho a mínima idéia do que seja essa substância. Só sei que ela tem um efeito devastador.
-Então não encontramos nada por aqui também. As respostas nós vamos ter que encontrar lá na fazenda. Vamos passar nas áreas vizinhas, entrevistar as pessoas, talvez alguém tenha visto alguma coisa. - disse Mulder. E Scully percebeu na sua voz um certo desapontamento por não ter ao menos uma pista para seguir.
No caminho de volta para a fazenda, os agentes decidiram que iriam investigar as áreas próximas, e para isso iriam se separar. Só havia duas fazendas por perto, e elas eram as últimas esperanças de encontrar alguma pista. Os dois agentes marcaram de se encontrar algumas horas mais tarde.
Scully foi até a fazenda junto com o geólogo, e Mulder foi sozinho, em seu próprio carro.
Scully foi a primeira a chegar na fazenda a ser investigada. Max buzinou até aparecer alguém.
-Pois não?
-Sou a Agente Dana Scully, do FBI, e estou investigando um caso que ocorreu perto daqui. Gostaria de entrar, dar uma olhada na fazenda, e fazer alguma perguntas.
-Fique à vontade.
Scully e Max caminharam por toda a fazenda, procurando rastros, pegadas, alguma pista. No caminho, Scully conversava com o homem.
-Você é o dono da fazenda? perguntou ela.
-Não senhora. Sou o caseiro. Os patrões só vêm uma vez por mês.
-Você já avistou algum animal diferente, ou já ouviu um ruído estranho por aqui?
-Não senhora. O único animal que já deu trabalho aqui foi um lobo. Mas demos jeito nele rapidinho. Fora isso, isso aqui é muito tranqüilo.
Scully continuou procurando. Viu que ali não havia realmente nada de suspeito. Ela já ia em direção ao carro quando seu celular tocou.
-Scully. ela atendeu, da mesma maneira que atende a todos os telefonemas.
Era o Mulder.
-Scully, sou eu. Encontrei algumas coisas bem interessantes aqui. Seria bom você e Max darem uma olhada.
Scully se despediu do caseiro e partiu em direção à fazenda ontem Mulder estava.
Rapidamente chegou lá, entrou e começou a procurar por Mulder. O encontrou na entrada de uma área bem grande, com vegetação alta e densa. Ele logo começou a dizer o que havia descoberto.
-Scully, conversando com o dono da fazenda, descobri que alguns de seus animais também foram encontrados mortos. O dono achou se tratar de alguma doença, mas não conseguiu descobrir qual. Felizmente nenhuma pessoa foi ferida.
-E nesse mato você descobriu alguma coisa? perguntou Max, que estava ao mesmo tempo assustado e deslumbrado com tudo que vinham descobrindo.
-Venham, disse Mulder, e aconselhou Scully a pegar sua arma, somente por segurança.
Eles começaram a entrar no mato. Max pegou um facão para ir abrindo caminho, que estava cheio de galhos. Enquanto iam andando, Mulder ia contando mais novidades.
-Descobri também que na outra fazenda os donos realizavam constantes queimadas para conseguir pasto. E nessa fazenda também já foram realizadas várias queimadas.- disse Mulder.
-Então você está achando que os animais, ou o que for, atacaram simplesmente porque estavam destruindo o seu habitat? perguntou Max.
-Sim. Eles provavelmente não se alimentam de carne, então mataram e deixaram os corpos na própria fazenda. E agora estão tentando fixar moradia aqui. explicou Mulder.
Scully estava sem dizer nada até agora.
-Mulder, se você estiver certo, os habitantes dessa fazenda correm perigo.
-Isso mesmo. Se as criaturas se sentirem ameaçadas, vão atacar, com certeza.
Nesse momento, Mulder parou de andar e apontou para algumas pegadas no chão e disse:
-Estão vendo essas pegadas? São do nosso suspeito.
Nessa área, o chão estava cheio de lama, então foi fácil identificar as pegadas.
Eles começaram a seguir as pegadas, que deram em um monte de folhas e galhos. Mulder, com a arma na mão, levantou as folhas e viu que embaixo delas havia uma espécie de túnel feito de terra, bastante estreito e escuro.
-Aqui deve ser a toca dele. observou Max.
Scully pegou uma lanterna e iluminou o esconderijo.
-Isso parece estar vazio. Dá pra ver que ali tem vários tipos de frutas. Você estava certo, Mulder. Essa criatura não é carnívora.
-Mas é perigosa. Ainda não sabemos quantos são, ou como matam suas vítimas. Muito menos quando vai voltar pra sua toca. disse Mulder.
-Estamos lidando com algo complemente desconhecido, Mulder. Não seria melhor pedir ajuda? perguntou Scully.
-Eu quero estar aqui quando esse bicho voltar. E não quero perder tempo indo pedir ajuda.
Nesse momento Max se ofereceu para ir buscar ajuda. Mulder e Scully se entreolharam. Os agentes perceberam que o biólogo estava visivelmente com medo. Então resolveram deixar ele ir. Mulder deu uma arma para ele e falou para não trazer muita gente, pois atrapalharia a investigação. Mais que depressa Max foi em direção à fazenda.
Scully continuou observando a toca. Viu que não era muito funda, então só devia ser um animal. Mulder achava que era mais de um.
-Um só não faria tanto estrago. Talvez hajam mais tocas.
Eles olharam ao redor e não viram mais nenhuma pegada, ou algum rastro.
-Deve ser só essa toca mesmo. observou Scully
De repente, ouviram alguém gritando por socorro.
-É o Max. disse Mulder.
Os agentes sacaram suas armas e começaram a correr na direção aonde Max havia ido. Tentaram se guiar pela voz dele. Em um certo momento, não ouviram mais nada. O silêncio logo foi interrompido por sons de tiro.
Scully conseguiu localizar Max. Ele estava a cerca de 15 metros na frente dos dois agentes. Mulder e Scully correram em sua direção e o encontraram desacordado e bastante machucado pelos galhos e pedras. Havia marcas se sangue no chão, mas deu para perceber que o sangue não era de Max.
-Max deve ter acertado o animal. disse Mulder.
Scully examinou o biólogo.
-Ele tem pulso e ainda respira. Precisamos levá-lo para o hospital agora. Talvez ainda possamos salvá-lo, Mulder. disse Scully.
Mulder não queria ir. Ele estava certo de que se Max tivesse acertado os tiros, seria muito mais fácil capturar a tal criatura.
Mas Scully insistiu.
-É uma vida que está em jogo, Mulder. Depois nós voltamos aqui com equipamento necessário. Se insistirmos agora, vamos acabar sendo mortos.
Mulder concordou. Os dois arrastaram Max até a fazenda, sempre estando atentos ao que acontecia ao seu redor.
Já na fazenda, Scully procurou pelo caseiro e pediu para que chamasse uma ambulância imediatamente. Os paramédicos chegaram algum tempo depois e mais que depressa colocaram o biólogo na ambulância e foram para o hospital.
Enquanto isso, Mulder e Scully conversavam sobre o que havia acontecido.
-Mulder, agora estamos certos de que só há um animal. Se houvesse mais, Max provavelmente teria sido morto.
-Sabe o que eu acho, Scully? Que essa criatura começou a soltar uma substância tóxica, mas como foi atingido por um tiro, parou e fugiu. A quantidade da substância foi insuficiente para matar Max, mas bastou para o deixar desacordado.
Scully ficou em silêncio, pensativa. O seu silêncio significou que dessa vez ela concordava com Mulder.
Já estava anoitecendo, e os dois agentes estavam visivelmente cansados.
-Mulder, não paramos para descansar um segundo desde as 7 da manhã. E não tem a menor lógica entrarmos nessa mata de noite. Vamos para um hotel descansar e amanhã nós continuamos com a investigação. disse Scully.
Mulder concordou. Alertaram os moradores da fazenda para que dormissem com as portas bem trancadas e que colocassem os animais em lugar seguro.
-Também seria ideal vocês terem uma arma em lugar de fácil acesso, para usarem em caso de emergência. alertou Mulder.
Ele disse isso e se dirigiu com Scully para o carro. Dirigiram até o hotel da cidade, que não era muito distante e alugaram um quarto.
Os dois agentes subiram para o quarto. No caminho, Scully comentava:
-Ainda vamos ter problemas por dividir o mesmo quarto de hotel, Mulder.
Ele não disse nada, apenas sorriu.
Chegaram no quarto e enquanto Mulder foi tomar banho ( de água gelada, pois o hotel não tinha aquecedor) , Scully pegou seu celular e ligou para o hospital.
-Um paciente foi levado para esse hospital em uma ambulância, mais ou menos às 18:30. O nome dele é Max Burns. Poderia me dizer qual o estado dele? disse Scully.
-Espere um momento que vou olhar sua ficha. Max Burns... Aqui está. O quadro dele está crítico. Ele chegou aqui desacordado, e permanece inconsciente. O sangue encontra muita dificuldade para circular. Não sabemos ao certo o que causou o acidente, e se não descobrirmos a causa rapidamente, vamos perdê-lo. informou a enfermeira.
-Sou agente federal. Max estava ajudando na investigação de um caso. Vamos continuar com as investigações pela manhã, e talvez encontremos algo que possa ajudar Max. Entrarei em contato novamente amanhã.
-Uh, que água mais quente. Você ligou para o hospital, Scully? Como está Max?
-Nada bem, Mulder. O quadro dele é grave. A substância não o matou, mas o deixou entre a vida e a morte. Se não conseguirmos realizar pesquisas nessa criatura para encontrar uma espécie de antídoto, ou algo que faça a substância parar de agir, Max vai morrer. Scully disse isso e foi para o banho.
Mulder pegou seu laptop e começou a pesquisar sobre a região da fazenda. Encontrou alguns registros de 1994 de moradores que disseram ter visto uma criatura bastante estranha nos arredores da fazenda. Encontrou também um registro de 96. Mas em nenhum dos casos houve mortes, ou ferimentos graves.
Mulder concluiu que a tal criatura já estava na região há algum tempo, e que, pelo jeito, não queria sair de lá.
O agente se deitou e logo dormiu. Teria um longo dia pela frente.
Os dois agentes acordaram bem cedo e saíram do hotel em direção à fazenda aonde Max havia sido atacado.
Ao chegarem, perguntaram aos moradores se tinham visto ou ouvido algo de anormal, mas a resposta foi negativa. Decidiram começar logo com a investigação. Pegaram suas armas e outras coisas que poderiam precisar e entraram na mata.
-Scully, temos que ser bastante cuidadosos. Essa criatura vê todos os que invadem seu território como inimigos. alertou Mulder.
Os dois começaram a andar pela mata e chegaram até o esconderijo. Novamente, estava vazio. Eles ficaram escondidos, à procura de algum sinal. Cerca de 10 minutos depois, ouviram um barulho. Sacaram suas armas e começaram a andar em direção ao som. Mulder ia na frente e Scully logo atrás.
Mais um barulho. E logo depois Scully é atacada.
-Mulder, me ajude.
Ele se virou e finalmente pôde ver a criatura. Ela era marrom, bem maior que um ser humano e o aspecto de seu corpo era semelhante ao de uma árvore.
A substância tóxica saía por um orifício que havia em suas patas. Antes que Scully fosse atingida, Mulder acertou 3 tiros no animal, que caiu desacordado.
-Está bem, Scully? Mulder estendeu sua mão e ajudou-a a se levantar.
O animal estava morto, não havia dúvidas. De longe, Scully observou o animal.
-Se levarmos um pouco do veneno, poderão criar um antídoto e salvar Max.
Os agentes colocaram luvas e puseram um pouco de veneno em um pote. E saíram em seguida da mata.
-Será que só havia um, Mulder?
-Não sei, Scully. Mas nós já cumprimos a nossa parte. enquanto Mulder dizia isso, limpou a face de Scully, que estava suja de terra.
Ela sorriu.
Já em casa, Mulder fazia o relatório do caso.
" Após o término das investigações concluí que as mortes foram causadas por uma estranha criatura, fruto de uma mutação genética, ocorrida provavelmente devido ao fato de que na região havia resíduos químicos enterrados em uma parte do solo. Os ataques ocorreram porque a criatura de sentiu ameaçada devido às queimadas na área.
Depois de repetidas análises no veneno recolhido, a equipe médica do FBI conseguiu produzir um antídoto, ainda em tempo de salvar a vida do biólogo Max Burns. O antídoto resultou em uma melhora lenta e gradual do biólogo, que está no hospital apenas em observação.
Esse caso novamente nos mostra que a natureza tem suas armas para se defender, e as usa sempre que necessário. As constantes queimadas na região poderão resultar em casos semelhantes a esse, se as pessoas não se conscientizarem. É preciso encontrar um meio de interagir com as espécies, ao invés de destruir seu habitat e sua liberdade. "
Relatório encerrado.
FIM
A Verdade está lá fora.
Aline "Scully" fevereiro/março de 1999