É, eu sei que todos nós temos emoções, mas é bom que entendamos perfeitamente o que são as emoções. São motivações para o comportamento adaptativo, provenientes de uma época em que éramos ignorantes demais para definir bem as coisas. Mas sou capaz de imaginar que, se um bando de hienas corre em minha direção com os dentes à mostra, há perigo pela frente. Não preciso de alguns centímetros cúbicos de adrenalina para entender melhor a situação. Posso imaginar que talvez fosse importante eu dar alguma contribuição genética para a próxima geração. Na verdade, não preciso de testosterona em minha corrente sangüínea para entender isso.
Entenda, as pessoas religiosas... A maioria delas... Pensam realmente que esse planeta seja uma experiência. É a isso que se resumem suas crenças. Sempre há um ou outro deus se metendo nas coisas, andando com mulheres de mercadores, dando tábuas em montanhas, ordenando aos pais que mutilem os filhos, ensinando às pessoas as palavras que podem dizer e as que não podem, fazendo as pessoas se sentirem culpadas por gozarem a vida, e assim por diante. Por que os deuses não deixam as coisas como estão? Todo esse intervencionismo cheira a incompetência. Se Deus não queria que a mulher de Ló olhasse para trás, por que não a fez obediente, de modo que fizesse o que lhe disse o marido? Ou, se Deus não tivesse feito Ló tão bobo, talvez a mulher dele lhe prestasse mais atenção. Se Deus é onipotente e onisciente, por que não fez logo o universo de maneira a ser como ele quer? Por que está sempre consertando e se queixando? Não, há uma coisa que a Bíblia deixa claro: o Deus bíblico é um industrial desleixado. Como não é bom de projeto, não é bom de execução. Se houvesse concorrência, ele estaria falido. É por isso que não acredito que sejamos uma experiência. Poderia haver uma porção de planetas experimentais no universo, lugares onde deuses aprendizes põem à prova suas habilidades. [...] Mas NESTE planeta não há nenhuma microinterveção. Os deuses não dão uma passadinha aqui para consertar as coisas quando metemos os pés pelas mãos. Basta olhar a história da humanidade para ficar claro que sempre vivemos por nossa própria conta.
[...] Acho que não somos uma experiência. Creio que somos o meio de controle, o planeta em que ninguém estava interessado, o lugar onde ninguém intervinha. Um mundo de calibração que se estraga. É isso que acontece quando eles não intervêm. A Terra é uma aula prática para os deuses aprendizes. "Se vocês errarem muito, fazem uma coisa como a Terra", dizem eles. Mas, evidentemente, seria desperdício destruir um mundo perfeitamente íntegro. Por isso eles nos dão uma olhadinha de vez em quando, só por segurança. É possível que de cada vez tragam os deuses que cometeram bobagens. Da última vez que olharam, estávamos brincando nas savanas, tentando correr mais depressa do que os antílopes. "Muito bem, está tudo certo", disseram. "Esses sujeitos aí não vão nos das nenhum problema. Daqui a 10 milhões de anos, a gente olha outra vez. Mas, por segurança, vamos acompanhá-los."
[...] E também a teoria da relatividade de Einstein não havia sido comprovada. É absolutamente impossível uma velocidade superior à da luz, declarara Einstein. Como pode ele saber? Quão perto da velocidade da luz havia ele chegado? A relatividade era apenas uma forma de compreender o mundo. Einstein não tinha competência para restringir o que a humanidade poderia fazer no futuro remoto. E decerto Einstein não podia impor limites ao que Deus era capaz de fazer. Não poderia Deus viajar mais depressa do que a luz se Ele assim o desejasse? Não poderia Deus fazer com que nós viajássemos mais depressa que a luz se Ele assim o desejasse? Havia excessos na ciência e também na religião.
Que penso sobre a "crise demográfica mundial"? Querem saber se sou contra ou a favor? [...] Tudo bem. É por causa da superpopulação que sou a favor do homossexualismo e do celibato do clero. Padres solteiros são, aliás, uma idéia excelente, pois isso tende a suprimir qualquer propensão hereditária para o fanatismo.
abade: "Mas POR QUE nos comunicamos?"
Lunacharski: "Para trocar informações."
abade: "Mas por que QUEREMOS trocar informações?"
Lunacharski: "Porque nos alimentamos de informações. Elas são necessárias à nossa sobrevivência. Sem informações, morremos."
abade: "Eu acredito que nós nos comunicamos por amor ou compaixão. [...] Posso conversar com uma pedra. [...] "
Lunacharski: "Estou inteiramente disposto a acreditar que a pedra se comunique com o senhor. Mas não tenho certeza de que o senhor se comunique com a pedra. Como nos convenceria de que pode fazer isso? O mundo está cheio de enganos. Como sabe que não está iludindo a si próprio?"
abade: "Ah, o ceticismo científico. Para se comunicar com uma pedra, é preciso tornar-se muito menos... preocupado. Não se deve pensar tanto, falar tanto. Quando digo que me comunico com uma pedra, não estou falando de palavras. Os cristãos dizem: 'No princípio era o Verbo". No entanto, estou falando de uma comunicação muito anterior, muito mais fundamental que essa."
Ellie: "[...] A que tipo de comunicação pré-verbal o senhor se refere?"
abade: "Sua pergunta é composta de palavras. A senhora está me pedindo que use palavras para descrever o que nada tem a ver com palavras. Vejamos. Existe uma história japonesa que se chama 'O sonho das formigas'. Passa-se no Reino das Formigas. É uma história comprida, e não vou contá-la agora. Mas a sua moral é a seguinte: para compreender a linguagem das formigas, é preciso tornar-se uma formiga."
Lunacharski: "A linguagem das formigas, na verdade, é uma linguagem química. Elas depositam marcas moleculares específicas para indicar o caminho que seguiram a fim de localizar seu alimento. Para compreender a linguagem das formigas, eu preciso de um cromatógrafo de gases ou um espectômetro de massa. Não preciso transformar-me em formiga."
abade: "É provável que essa seja a única maneira que o senhor conhece de se tornar formiga. Diga-me uma coisa: por que as pessoas estudam os sinais deixados pelas formigas?"
Ellie: "Bem, acho que um entomologista diria que é para entender as formigas e sua sociedade. Os cientistas sentem prazer em entender as coisas."
abade: "Isso é apenas outra maneira de dizer que sentem amor pelas formigas."
Ellie: "Sim, mas os que liberam verbas para os entomologistas dizem outra coisa. Dizem que é para controlar o comportamento das formigas, para fazer com que deixem uma casa que tenham infestado ou compreender a biologia do solo, com fins agrícolas. Essa compreensão poderia proporcionar uma alternativa aos pesticidas. Mas creio que o senhor poderia dizer que isso encerra alguma amor pelas formigas."
Lunacharski: "Mas também é por interesse próprio. Os pesticidas são um veneno para nós também."
[...]
"Perguntei a ele se, já que pode comunicar-se com uma pedra, é capaz de se comunicar com os mortos."
"E o que ele respondeu?"
"Que com os mortos é fácil. Sua dificuldade é com os vivos."
Carl Sagan
do livro "Contato"