Lendo "O que é o virtual?", de Pierre Lévy, iniciei um questionamento sobre o papel da autoria no hipertexto informático. Cheguei à conclusão que um hipertexto verdadeiramente dinâmico não se preocupa com o mantenimento do papel do autor, uma vez que a infinita quantidade de pessoas que compõe o hipertexto através da navegação é também autor. Assim comecei a pensar um escrever e ler onde a autoria fosse secundária ou até mesmo descartável...
Quando iniciei meus estudos em Psicologia na UNISINOS obtive meu primeiro contato com esta ciência sem método e objeto consensuais. Minha primeira disciplina era a de Psicologia Geral e Científica (este nome ainda mereceria uma reflexão futura). Nela a professora navegou pelas diferentes escolas em Psicologia e um dia...
Um dia apresentou-me Isso, digo ele, ou Ele, o senhor Freud. Primeira e Segunda Tópica, ..., na verdade aquela disciplina queria promover, também, uma breve introdução à Psicanálise freudiana.
Em pouco tempo uma espécie de repulsa às preposições do Complexo de Édipo atravessou-me. Os professores da banda freudiana diziam que isto era normal, afinal Isso precisava de defender. Os da banda não-freudiana diziam também que isto era normal, afinal "... ninguém da sã consciência pode se submeter à barbárie da teoria edípica...".
Enfim, sentia-me feliz em ambos os lados, feliz por perceber que também em mim funcionava aquela mecânica infernal com seus mecanismos de defesa e feliz por perceber que tinha sã consciência ao refutar Édipo.
Mas a repulsa incomodava porque não me fazia sentido a fórmula papai+mamãe+filhinho. Por que não, por exemplo, papai+papai+filhinho, mamãe+mamãe+filhinho, papai+filhinho, filhino+filhinha, ... Eu queria quebrar o círculo edipianizante em prol do polígono.
Um dia, uma professora da banda não-freudiana, percebendo minha angústria com o Édipo (para os da outra banda era angústia de castração) receitou-me a obra O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guatarri.
AS 511 PÁGINAS MAIS EXCITANTES DA MINHA VIDA !!!
A partir da leitura desta obra, iniciei um processo de garimpeiro, buscando as pérolas literárias referenciadas na minha leitura. Lia muito Lévy, Foucalut, Baudrillard, Freud, Guatarri, Rolnik, mas predominantemente Deleuze.
Lia, lia, lia, mas não sentia. Não sentia como Deleuze sugeria que deveria ser uma leitura:
"A boa maneira de se ler hoje, porém, é a de conseguir tratar um livro como se escuta um disco, como se vê um filme ou um programa de televisão, como se recebe uma canção: qualquer tratamento do livro que reclame para ele um respeito especial, uma atenção de outro tipo, vem de outra época e condena definitivamente o livro." (Deleuze)
Pensava muito do porquê de eu não sentir Freud como um ou outro professor dizia sentir, não sentir a dor de Foulcault ao contar das mazelas dos loucos, ...
Eu sentia algo, algo muito diferente dos relatos de algumas outras pessoas que acessavam as mesmas obras que eu acessava.
Certa vez, o destino cartografou um ponto de intersecção entre eu e Pierre Lévy. Ele, autor que eu já tinha lido, mas não sentido, estaria na UNISINOS.
Lévy falou no francês mais carregado de sensações que eu poderia sentir. Já não era mais o LEVY, O que é o virtual , blá, blá, ... Era Pierre Lévy, falando, com amor, do virtual. Já não era mais o autor, era um homem, acima de tudo um leitor de sua própria obra que ali estava lendo o que tinha escrito. Eu e ele, ambos, lendo um livro, seu livro.
Foi justamente aí que eu percebi que era fácil conversar com eles, os autores, com Deleuze e sua gangue.
Iniciei então meu gozo da leitura, ou melhor, da conversa, do diálogo. A abdicação gradual de tratar o livro com respeito maior ou o autor como SOBRENOME, Nome. Obra ... possibilitou-me escrever mais, conversar mais com eles, meus amigos, mortos e/ou vivos.
Minhas leituras tornaram-se núpcias, encontro de intensidades, onde surge uma outra coisa, algo entre eu e ele. Surge alguém que não é o AUTOR nem o leitor, surge alguém que conversa, dialoga.
Particularmente acredito que estou em processo de desterritorialização, gradualmente abandono as citações completas, as referências e as aspas. Gradualmente misturo o texto dele ao meu de modo que o que nasce não é texto dele nem meu, é justamente um entre-dois. Pouco a pouco saio da orientação do falo-fono-centrismo e do logocentrismo, sou atravessado por outras linhas.
Gostaria, ao conversar com eles, de abolir qualquer possibilidade de estabelecer meu estilo de escrever. E se necessário fosse delinear um estilo gostaria que o meu fosse o de conseguir gaguejar na minha própria língua. Quando falo em gaguejar digo isto literalmente, gostaria de escrever como se estivesse escrevendo em uma língua estrangeira. E é assim que me sinto quando deixei de ler eles, quando passei a conversar.
Não estarei necessariamente me tornando nada ao conversar com eles, pelo contrário, estarei apenas me encontrando com eles, com suas idéias, suas palavras. E neste encontro, cada um de nós encontra o outro em um lugar entre nós dois uma vez que nada temos em comum. Encontramo-nos num lugar que está entre nós, que tem sua própria direção, tem uma evolução a-paralela.
Abdico da referência à autoria pois não quero reconhecê-los pelo nome pois reconhecer é o contrário do encontro. Encontro justamente é se surpreender pela diferença e reconhecer é identificar o idêntico.
O que quero ao ignorar gradativamente a referência bibliográfica e promover o encontro e não a reunião ou a união de meu texto com o deles. Não quero justaposição de citações, quero o nascimento de uma gagueira, o traçado de uma linha quebrada que parte sempre em adjacência, uma espécie de linha de fuga ativa e criadora.
Com Deleuze meu encontro cada vez é diferente. Nunca conheci ninguém tão móvel, tão despudorado, nunca conheci um filósofo tão não-filósofo. Quando acho que o encontrei ele já não está mais lá. Quando acho que estou chegando no estágio de seu raciocício ele já disparou. Porém também fujo dele, quando ele evolui suas idéias de modo a estabelecer intersecção com as minhas eu tomo outra linha de fuga e penso outras coisas. Com ele, não levamos o pensamento muito a sério, porque não temos a pretensão de sermos filósofos ou psicólogos de profissão.
Por outro lado Marquês de Sade sempre foi um pouco de ar puro. Quando queria respirar, conversava com ele. Ele me tirava deste lugar de psicólogo. Levava-me para a alcova, para o gostoso sexo de suas virgens.
Roubei deles muito, e espero que eles tenham feito isto comigo. Quando eu escrevia não trabalhávamos juntos, trabalhávamos entre os dois.
Esta desconsideração chamada de ética ou moral com a referência à autoria não parece ser mais violenta do que quando se lê alguém sem estabelecer diálogo.
A grande vantagem nisto tudo é a de que quando explico Deleuze, por exemplo, é você que lê. Assim, Márcio explica Deleuze assinado Você. E a leitura passa a ser um ato de participação na conversa pois ao assinar você também conversa um pouco conosco.
Não sonho em ocupar o lugar da autoria. Gostaria de gaguejar a partir deste lugar onde a conversa, de igual para igual, é possível e neste lugar a referência não tem espaço. Só há espaço para os autores que se fizeram leitores e para mim que, enquanto leitor-conversador, vivo meu devir-autor.
Enfim, o prazer decorrente de poder conversar com Deleuze sem necessariamente ter de citá-lo é maior do que as implicações por não respeitar a norma pertinente às citações bibliográficas. É um namoro, às vezes você arrisca contatos mais íntimos e não permitidos mesmo sabendo que alguém pode descobrir...
É preciso buscar outras formas de ler e de escrever...