Gibran Khalil Gibran teve em seu período como artista a capacidade de retratar em suas obras (quer fossem em seus livros, desenhos ou pinturas) todas as suas emoções e sentimentos, suas dúvidas e aspirações. As obras "O Profeta" e "Lázaro e sua Amada" , analisadas neste trabalho, serão de grande importância para que seja possível sentir toda a profundidade e magnificência desse escritor, que marcou a história da literatura universal e encantou milhares de leitores com seus pensamentos.
Gibran Khalil Gibran nasceu em 1883 numa pequena cidade do Líbano chamada Bicharri. Era uma época difícil na país, pois o comércio e agricultura estavam estagnados, o atraso tecnológico impedia o desenvolvimento, as injustiças sociais faziam o povo sofrer e a Igreja de seu país somava riquezas em nome de Cristo sem dividir nem compartilhar. Eis aí uma das principais influências de Gibran: ele possuía uma enorme vontade de fazer o seu Líbano, o seu país tão adorado (Gibran era altamente patriota, amava realmente sua terra natal), um país justo e desenvolvido. Essa característica ficou por muitas vezes exposta em seus livros e pensamentos, muitos escritos ainda na adolescência do escritor, que criticavam de forma sutil os governantes e poderosos do Líbano.
Tendo em vista a situação de seu país, Khalil Gibran mudou-se para a América, em busca da realização de seus sonhos. Acaba aí a "fase árabe" da arte de Gibran.
Já na América, morrem sua irmã, seu irmão e sua mãe. Isso atordoa o escritor e faz com que ele se sinta culpado por essas mortes. Nesse período, Gibran entra em conflito consigo mesmo e isso também se reflete em suas obras. Gibran era sensível, e isso às vezes o fazia sofrer demais.
Gibran conhece numa exposição de seus desenhos e pinturas uma mulher chamada Mary Haskell. Ela se torna sua amiga e benfeitora e contribui para que se inicie um novo período em sua vida. A "fase americana" de sua escrita. Gibran e Mary sempre se correspondiam, e ela por muitas vezes dava opiniões sobre o que Gibran escrevia. Era uma estranha amizade. Acredita-se que havia uma sensação de amor entre os dois, que nunca foi consumada, mas que provavelmente rendeu a existência de personagens provavelmente baseados em Mary. Personagens esses sempre cheios da amor e perfeição.
A primeira obra analisada será "Lázaro e sua Amada", uma peça em um ato, escrita num importante período da vida do escritor. A segunda obra analisada será "O Profeta", livro que rendeu ao autor reconhecimento internacional e rendeu aos leitores pensamentos que marcaram e ainda marcam suas vidas.
Gibran escreveu esse livro quando já estava prestes a morrer. Na verdade, Lázaro e sua Amada não é um livro propriamente dito. É um roteiro de teatro, que se utiliza do personagem bíblico Lázaro, que era amigo de Jesus Cristo e por ele foi ressuscitado, após estar morto e até ter sido velado. Além de Lázaro, participam ainda da história sua mãe, suas irmãs Marta e Maria e um personagem marcante da história, típico de Khalil Gibran: o Louco. Esse personagem é ignorado por todos da história. Suas palavras não são ouvidas por ninguém. O personagem se assemelha à voz da consciência que todos os homens possuem, e suas colocações são dotadas de extrema sabedoria e conhecimento. Talvez o Louco fosse o próprio Gibran Khalil Gibran, que se escondendo atrás do personagem expressava suas opiniões de uma forma direta, sem rodeios nem a necessidade de usar paradoxos. Frases como "TODOS OLHAM ATRAVÉS DE ALGUÉM PARA VER OUTRA PESSOA" demonstram toda a sabedoria do Louco.
A história se passa após a ressurreição de Lázaro. Ele expressa em suas falas o desejo de não ter voltado da morte, pois lá havia encontrado sua AMADA (provavelmente esse personagem é baseado em Mary Haskell) . Diz ainda que não entendia por que haviam lhe dado a felicidade de estar no paraíso e lhe tirado isso logo depois. Descobre que sua mãe e suas irmãs é que haviam pedido a Jesus que o ressuscitasse, e então se revolta para com elas. Lázaro compara a vida ao inverno, ao inferno, e diz que a primavera, a felicidade, o paraíso enfim, era onde estava após ter morrido. Eis aí o ponto chave da obra: Gibran expressa o que pensa da vida e sua expectativa em relação a morte que se aproximava.
"É UMA PENA QUE APÓS MIL PRIMAVERAS EU TENHA VOLTADO A ESTE INVERNO."
O livro "O Profeta" é, com certeza, a mais conhecida e importante obra de Khalil Gibran. É incrível observar a ciência da vida que existe em cada palavra desse livro, embora muitos o considerem um tanto quanto "pesado". O Profeta é um livro que, da mesma forma que " O pequeno príncipe" (outro clássico da literatura mundial), precisa ser lido não só com os olhos, mas com a razão e com a emoção.
Durante o livro o autor coloca o leitor frente a frente com diversos paradoxos da existência do ser humano na Terra, e faz com que se pense no porquê dos acontecimentos do nosso dia a dia.
O enredo básico da obra fala de um homem chamado Almustafa. Ele era muito amado por todos de Orphalese, cidade em que vivia, mas já esperava há doze anos pelo navio que o levaria de volta a sua terra natal. Certo dia, Almustafa avista o navio que o tinha trazido para Orphalese no horizonte, e percebe que o tão esperado dia da partida é chegado. Entretanto, quando vai anunciar sua partida ao povo da cidade, Almustafa causa grande tristeza a todos, pois é tido como "um filho, ternamente predileto". Então, o povo percebendo que o seu Profeta vai mesmo partir, pede-lhe que desvendo todos os mistérios da vida.
E aos poucos as pessoas pedem para que ele fale do amor, da paixão, da alegria, do trabalho, e de muitas outras coisas que intrigam e fascinam a humanidade desde seu surgimento. E é a partir daí que surge o verdadeiro "sabor" do livro, pois é a partir de tal momento que o Profeta Almustafa conta com doces palavras as verdades mais sublimes e cruéis, deixando no ar a dúvida: "Terei sido eu quem falou? Não fui eu também ouvinte?"
Todo o livro é especial, mas algumas expressões se destacam e merecem atenção especial, como esta que fala dos pais e filhos:
"Vocês são os arcos dos quais seus filhos são lançados como flechas vivas. O Arqueiro divisa o alvo na trilha do infinito, e retesa o arco por Seu poder para que Suas flechas possam seguir rápidas e voar longe. Que vocês cedam de bom grado à mão do Arqueiro; Pois da mesma forma que Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que fica."
Percebe-se nessa expressão a ligação divina considerada por Gibran entre Deus, os pais e os filhos. Analisando mais profundamente consegue-se extrair a essência das palavras e notar que Gibran diz que, por mais que os pais queiram moldar os filhos para que sejam iguais a si mesmos, jamais conseguiram, pois os filhos são "flechas", que depois de lançadas pelo arco seguem o seu próprio caminho e só acertarão o alvo se o arco tiver sido preciso o bastante.
Deixando de lado a questão das obras específicas e analisando o estilo artístico de Gibran, percebemos ainda um lado todo místico da autor. Misticismo esse que rendeu a Khalil a excomunhão da igreja católica em 1908 após ter escrito o livro "Asas Rebeldes". Sabe-se que além da literatura, Gibran também era pintor e desenhista, e é interessante notar que grande parte de seus textos possuía uma pintura correspondente, como é o caso do trecho acima, retirado do livro "O Profeta" e que fala dos pais e filhos.
Eis que surge, então, um Gibran não apenas como escritor conceituado de sua época. Na realidade surge um Gibran encantador, de profundo conhecimento moral e espiritual, um Gibran que atordoa os sedentários da vida. Khalil não foi apenas um escritor, pintor ou desenhista. Khalil Gibran não foi simplesmente um artista, mas um verdadeiro mestre nos ensinando a verdadeira razão de viver. Quem sabe um dia poderemos ter esta visão da vida, e dizer com confiança que sabemos o que é a Vida. Quem sabe...
Gibran Sanfelice Lehmkuhl
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