Plena Madrugada

Plena Madrugada

Que ser é esse que em plena madrugada no Centê vaga? Na Rui Barbosa embarca e vai para o fundão. Perna esticada, olho fechado. Não pode fumar aqui. Foda-se.

Entra na Sete. Universal. Aos berros um pastor exorciza um infeliz. No chão aquele escarro como sentimento de desprezo. Um rasgo no joelho. Camisa listrada de flanela.

No Estação a imundície se diverte, ou acha. Caído na calçada um bêbado, drogado talvez. Um playboyzinho amassa uma loira no tubo do biarticulado. Qual a reação quando descobrir que travesti?

Nada na praça dos cheiradores. Na Rodoferroviária um mulato entra carregando uma mala. Cobrador no ombro babando. No buraco um tênis. Em seu tênis, não só buracos. Depois do Capanema o Siate. Uma moto e um Gol. Massagem cardíaca, sangue entrando no bueiro. Curiosos (em plena madrugada). Pano em cima do outro. De sua parte indiferença.

Do Cajuru ao Botânico nenhuma parada. Aquela coisa de vidro acesa. Bocejo até chegar no viaduto da BR. Pega outro cigarro. Carteiras vazias. Pega no sono, acorda no Capão. Do litoral sobe um trem. Em plena madrugada. No nariz um brinco. Dois na orelha. Gostava mais quando era lá por cima, pelo menos passava na frente daquela casa japonesa esquisita, ou não era casa?

Uma maloqueirada do VO no ponto da Rede. Motorista passa reto. Vidro estilhaçado, pedra na penúltima porta. No Oficinas tudo vazio. Não devia ter pintado o cabelo. Merdas acontecem.

Mais malaco no trajeto até o Centê. Vômito. Bebida barata. No terminal desembarca. Senta no banco e fica. Um estranho se aproxima. Braços cruzados e cabeça abaixada. Sozinha a essa hora, menina? Não, estou na companhia de meus demônios.

Cleverson L. Picolis
agosto de 1999

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