Essência ou Existência?

Quem estará realmente certo: Platão, com seu conceito de mundo das idéias, onde a essência precede a existência, ou o conceito de Sartre, em que a existência precede a essência? O mais provável é que os dois conceitos, juntos, aproximam-se mais da realidade

Tomemos um exemplo simples, um pequeno poema:

Olhei pra lagoa e vi a lua
Olhei a lua...
Porra cadê a lagoa?

Pois bem, o poema contém 61 caracteres (contando espaços, mudanças de linha e pontuações). Nosso alfabeto possui 26 letras (a-z), 11 letras com acentos (á, é, í, ó, ú, â, ê, ô, ã, õ, à) e 6 sinais de pontuação (. , ? ! - "), o que resulta em 43 caracteres aproximadamente. Isso em nosso alfabeto, porém, como há certos idiomas que utilizam mais algumas letras e acentos, vamos considerar igual a 50 o número de caracteres. Obviamente também há as letras maiúsculas, mas o interesse desse exemplo não é a exatidão, e sim dar uma idéia do conceito geral.

Com um texto de 61 "lacunas", e com 50 caracteres existentes para preenchermos essas lacunas, temos que o número total de textos possíveis é igual a 5061, que é aproximadamente igual a 4,3368x10103. É um número bastante elevado, porém, é um número finito de combinações. Além disso, muitas delas resultam em textos sem sentido (como uma sucessão de pontos, ou da letra "a"); ou então em textos que diferem em poucas letras (um "a" com acento ao invés de um "a" simples, um "j" ao invés de um "r"), enfim, pequenas diferenças que não comprometem o entendimento; e também temos o mesmo texto em idiomas diferentes. Dessa forma, o número total de textos distintos foi reduzido.

O ponto ao qual quero chegar é que esse poema já "existia" anteriormente, inclusive com versões em outras línguas, versões com erros gramaticais, com pequenas inversões de palavras, etc. O mais interessante é que pode-se pensar assim sobre quase tudo. Por exemplo, o quadro "The Scream", de autoria de Eduard Munch. Se digitalizarmos o quadro, transformando-o num bitmap, teremos então uma combinação de, por exemplo, 300x400 pontos, com cada ponto podendo ter uma dentre 16 milhões de cores. Pode-se considerar que o quadro já existia como uma dentre as finitas possibilidades resultantes da análise combinatória entre a quantidade de pontos e as cores. E não apenas esse quadro, mas diversas versões dele, e, possivelmente, versões de todos os quadros já pintados (levando-se em consideração os tamanhos e as proporções). Se tomarmos um ser vivo qualquer, podemos considerar seu código genético como uma das combinações possíveis existentes entre os blocos básicos que constituem o DNA, um objeto é uma combinação entre as partículas elementares existentes e suas posições relativas no espaço, uma partitura musical é uma combinação entre notas, pausas e tempos de duração.

Se pensarmos assim, talvez esteja certa aquela afirmação "Nada se cria, tudo se copia". Não há nada totalmente inovador, totalmente novo. Porém, é exatamente aí que entra o conceito existencialista. Não há "utilidade" nenhuma em algo "existir" numa espécie de plano das idéias, totalmente imaterial. Somente quando algum artista pinta um quadro é que podemos admirá-lo, somente ao se escrever o livro é que podemos lê-lo.

O conceito de Platão partia do geral para formar o particular. Ele afirmava que tínhamos a "idéia" cachorro, que era como uma fôrma de bolo, um molde perfeito. Da mesma maneira que nem todos os bolos assados na mesma fôrma são idênticos, nem todos os cachorros, partindo da "idéia cachorro", são iguais. Existem certas irregularidades, porém, todos remetem à idéia cachorro. Já Sartre partia do particular para formar o geral. Primeiramente existia um cachorro, depois outro, e após um considerável número de cachorros poderíamos chegar a uma imagem geral para um cachorro. Porém, o que acontece é que CADA cachorro já existe num mundo ideal (das idéias). Se vemos um cachorro, pode-se afirmar com certeza absoluta que esse cachorro já existia como uma dentre as finitas possibilidades resultantes de uma análise combinatória entre seus elementos constituintes. Dessa forma, nem Platão nem Sartre estão inteiramente errados, porém, também não estão inteiramente certos. Colocado de uma outra forma, cada cachorro já existia anteriormente no mundo das idéias, mas somente depois de vermos diversos cachorros é que podemos formar um conceito do que é um cachorro.

Um exemplo que ilustra bem esse conceito é o seguinte: imaginem um xibóvolo. Certamente nenhum ser sobre a face da Terra sabe o que é, pois como um xibóvolo é algo que existe somente no mundo das idéias (ou, para ser mais exato, no MEU mundo das idéias), sendo apenas uma dentre finitas possibilidade, ninguém tem a menor idéia do que vem a ser isso. Mas seu eu digo imaginem um cachorro, todos sabem como é um cachorro, porque já viram muitos cachorros e tem idéia de como ele é. E mais, se eu digo imaginem SEU cachorro, cada um tem a idéia exata de seu animalzinho de estimação, pois mesmo sendo ele o resultado de uma combinação, ele existe no mundo material, e, assim, têm-se uma idéia exata de como ele é.

Entretanto, o fato de tudo já "existir" não significa que não há mais sentido em se criar algo, em se pintar um quadro, escrever um livro; como foi dito, é preciso que algo esteja no mundo material para que possamos admirá-lo. E um bom artista consiste em alguém que, dentre tantas possibilidades, conseguiu trazer à realidade exatamente aquela que deixaria a melhor impressão, que teria o melhor resultado. Também pode-se dizer que existe um paralelo entre o trabalho de um cientista e o de um artista. O artista tenta "descobrir" qual dentre as numerosas obras de arte "existentes" é a mais bela, tenta "materializar" essas obras de arte; e o cientista tenta "materializar" a harmonia do Universo, encontrar as relações entre os fenômenos que percebemos (que podem ser encarados com uma relação entre teorias, equações, etc). Todas as equações já existem, o cientista apenas tenta descobri-las e trazê-las para a realidade.


Cleverson L. Picolis
novembro de 1999

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