Cinema

CINEMA - [De cinematógrafo] S.m. 1. Arte de compor e realizar filmes cinematográficos. 2. Cinematografia. 3. Projeção cinematográfica. 4. Sala de espetáculos, onde se projetam filmes cinematográficos. [Cf sinema.]
cinema - [Do gr. kínema, atos.] El comp. = 'movimento': cinemascópio. [Equiv.: cinemat(o)-: cinemática, cinematógrafo.]

Desde a antigüidade, o homem sempre sentiu a necessidade de registrar acontecimentos de sua realidade. Foi assim que se desenvolveram a pintura, a escrita, a escultura e, conseqüentemente, a capacidade de registrar depoimentos, acontecimentos, avanços científicos. Mas apesar da evolução dessas técnicas, que muitas vezes era encarada como um desafio científico, algo estava faltando; aquilo não era a realidade, não era a vida. Faltava realismo.

Com a invenção da fotografia, este registro se aproximou muito da vida real. Um vaso de flor fotografado era quase perfeito, tinha as mesmas sombras, características, cores. Mas ainda não estava completo. Mesmo com a fotografia sendo considerada o ápice da perfeição em registro de fatos e acontecimentos, a réplica não era igual, não criava uma "impressão de realidade". Isso só poderia ser conquistado com o movimento.

Os primeiros a realizar tal façanha foram os irmãos Auguste e Louis Lumière, que em 1895, no Café Paris, colocaram em cartaz suas primeiras produções: "A Saída Dos Operários Das Usinas Lumière", "A Chegada Do Trem À Estação" e "O Almoço do Bebê".

Após a façanha, os irmãos perceberam que haviam atingido vários objetivos em relação ao cinematógrafo, entre eles alguns que nem poderiam sonhar: ele foi considerado uma grande inovação científica, pois o fato de poder registrar um evento e mostrá-lo a qualquer momento não passava de uma idéia maluca até então; tornou-se um importante meio de comunicação, pois era eficiente e de um mesmo filme (negativo) era possível retirar diversas cópias que poderiam ser espalhadas (comunicação em massa); passou a ser a forma mais fiel de registro e documentação, já que poderia registrar e provar acontecimentos com fidelidade e autenticidade nunca vistas antes.

Mas, acima de tudo, perceberam a magia e o encanto do cinema. A população fascinava-se com a chegada de um simples trem à estação. Ora, mas é claro que as pessoas já haviam visto a chegada de um trem. Então, onde está o incrível? O incrível é o retrato da realidade, o trechinho da vida que se pôde colocar em uma tela branca, a novidade deste novo artefato científico-documentário, o movimento, a impressão de que é real e, ao mesmo tempo, uma grande ilusão, a qual nos faz entrar no filme, nos faz viajar de trem.

Os irmãos, que conseguiam ver no cinema apenas o caminho da documentação, declararam: "As aplicações do cinematógrafo, orientando-se cada vez mais para o teatro e dando ênfase à encenação, forçam-nos a abandonar esta exploração para a qual não estávamos preparados".

Como era uma técnica nova, o cinema passou a ser extremamente requisitado; todos queriam manter um contato com a nova invenção, ao menos, eram poucos os que não acompanhavam religiosamente os avanços cinematográficos. Essa nova forma de comunicação começou a ser utilizada para os mais variados fins, principalmente devido ao seu sucesso, sua influência social, sua popularidade, seus avanços tecnológicos, sua praticidade e seu grande alcance em massa.

E com a invasão de outros artistas , principalmente artistas plásticos e de artes cênicas, que passaram a direcionar o cinema segundo suas ideologias, o cinema deixou de ser um mero elemento documentário para ter um novo horizonte ideológico, incorporando outras expressões artísticas (dadaísmo, surrealismo, etc) e outras artes propriamente ditas (pintura, fotografia, teatro, música), mas se destacando realmente por ser uma nova e avançada forma de expressão, que tem como característica principal a versatilidade. As gravações foram deixando de ser apenas retratos da realidade, passando a ter um significado, uma mensagem oculta. Foi quando começou propriamente o cinema arte.

Uma das pessoas que mais explorou o lado artístico do cinema foi Charlie Chaplin. Com suas atuações brilhantes e sua maneira natural de expressar-se, Chaplin conseguiu cativar multidões inteiras. As pessoas viam seus desejos realizados na tela. Afinal, quem não gostaria de chutar o traseiro de um rico mesquinho ou fazer de bobo um policial arrogante como Carlitos fazia. Chaplin, com o uso da comédia, fazia as pessoas rir e se divertir com as trapalhadas de seu personagem, que não passava de um cidadão comum, assim como quem estava do outro lado da tela. Indiretamente ele passava para elas a situação da sociedade em que viviam, o desrespeito que presenciavam, a crise econômica pela qual passavam. Ele tinha o poder de fazer as pessoas rir, perceber e contestar sua situação, seu país. Entretanto, isso causou o protesto de alguns críticos, os quais acusavam Chaplin de difamador e comunista. Este disse certa vez: "Quer me compreender, então assista meus filmes." Com isso, percebemos que Chaplin, na verdade, não passou de um humanista que, na pele de um adorável vagabundo, foi capaz de criticar as injustiças sociais da época e da atualidade.

"Fiquei rico interpretando um pobretão", declarou Charles Chaplin. Poeta e vagabundo, às voltas com todas as humilhações das quais sempre escapa com uma pirueta, Carlitos remontou no tempo a dura vida dos pioneiros, antes de engalfinhar-se com as engrenagens dos tempos modernos. Ele propõe uma alegoria (linguagem figurada) em que o cômico mal oculta o áspero combate contra a fome, o frio e a solidão. "Em Busca Do Ouro" é o um dos mais célebres filmes de Chaplin. Nele, Carlitos, da mesma forma que milhares de garimpeiros, ruma para o Alasca a procura de ouro. Sem nenhuma estrutura para a garimpagem, Carlitos perambula no Alasca, enfrentando o frio e a solidão em vão. Já sem muitas esperanças, ele chega a uma cidadezinha onde encontra uma interesseira que o seduz, mas o abandona. Novamente sozinho, vaga pelo Alasca até encontrar o tão procurado ouro, que traz Georgia de volta.

"Tempos Modernos" é outro exemplo clássico da brilhante atuação de Chaplin, que desfere uma crítica audaciosa contra a mecanização. É uma sátira saborosa do maquinismo industrial e das mudanças econômicas e sociais pelas quais os Estados Unidos passavam, que apresentavam o fantasma do desemprego. Carlitos é engolido por uma máquina idealizada para diminuir o tempo de pausa para almoço dos empregados. Ele passa a sofrer de "Taylorite" aguda, vai para o hospital e, na saída, desempregado, une-se a uma mocinha que também está na miséria. E suas sinas é viverem na rua.

Podem ser citadas ainda obras como "Luzes da Ribalta", "O Grande Ditador", "O Garoto", entre outros.

Mas o cinema arte não gira apenas em torno de Chaplin. "Casablanca" é um dos maiores clássicos do cinema em todo o mundo. E é também uma das provas do papel importantíssimo do cinema no desenrolar da vida, pois é um protesto contra a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial.

Casablanca contraria, no desfecho, a norma da fantasia cinematográfica, pois o mocinho (Humphrey Bogart), não acaba com a mocinha (Ingrid Bergman). Por outro lado, não contraria a lógica do esforço de guerra pois quem fica com a mocinha é um herói da resistência. Também pôs em xeque a questão do adultério, já que a personagem já era casada quando teve um caso com ele em Paris; mas vale lembrar que ela acreditava ter ficado viúva antes de cair nos braços do herói. Também são discutidos os mitos do sacrifício e do heroísmo, relativizando a nocividade dos vícios: fuma-se, bebe-se, joga-se, trapaceia-se a valer no filme, mas os pecadores são os que servem a Hitler, ou seja, o mal está com o mal. Casablanca tem vários heróis que se desdobram e complementam sob os contrastes. O lançamento do filme 18 dias após a invasão da África pelos aliados contribuiu para a mitificação de Casablanca, que estava em cartaz quando os líderes da América e da França livre se encontraram em Marrocos para concretizar o que Rick e Laszlo haviam feito alegoricamente na tela. Era a "vida imitando a arte".

O cinema é capaz de manipular as pessoas de forma a fazer com que elas acreditem cegamente na idéia que se tenta passar. O cinema traz em seu conteúdo toda uma miscelânea de fatores: nos dá idéias prontas, ideologias, constrói e mostra nossos desejos e ambições, nossos devaneios e ilusões. Um bom exemplo disso são os filmes americanos, com os quais constantemente nos deparamos. É clara a idéia passada de que os americanos são os mocinhos, são os melhores, enquanto o resto do mundo é ultrapassado e cheio de bandidos. Em momento algum do filme isso é falado, mas a idéia fica marcada no nosso subconsciente.

Na atualidade, vemos surgir uma preocupação acentuada dos produtores cinematográficos com o cinema-comércio. Com a intenção de atrair multidões que reverteriam em lucros altíssimos, são "vendidas" bobagens em todo o mundo. São exemplos disso filmes que apelam para os efeitos especiais em excesso, desprovidos de mensagem, filmes pornográficos sem enredo, com violência gratuita ou terror explícito e fantástico. O cinema inicial não era comercial. Prova disso foi a primeira bilheteria, com arrecadação de 35 francos. Hoje, o cinema que rende bilhões, que lota salas de projeção, que atrai multidões, é, na maioria das vezes, cinema-comercial, algo vazio, simples relatos de fatos fictícios, sem mensagem, sem significado, enfim, sem arte.

O que difere um filme artístico de um filme meramente comercial é a maneira como a idéia nos é passada. A exemplo de uma pintura, a qual contemplamos, interpretamos e sentimos, ou um livro, o qual lemos, interpretamos e sentimos, o filme artístico é aquele em que temos de ver, interpretar e sentir. Filme artístico é, acima de tudo, um filme marcante, em que nos é passada uma mensagem, um significado oculto. Um filme comercial é voltado quase que exclusivamente ao entretenimento. Só é preciso assistir e sentir. A idéia vem toda pronta, não há nenhum tipo de mensagem oculta.

Diferente disso, Pulp Fiction é um filme que, embora retrate a violência das ruas, tem uma estruturação muito interessante. A narrativa não é linear: tudo parece acontecer ao mesmo tempo, como na vida real, sem observar a seqüência tradicional de "começo, meio e fim". A intenção é satirizar a importância dada às grandes preocupações da modernidade. Banaliza a morte, a violência, o uso das drogas. Bem ao sabor dos tempos modernos, exagera nas cores, ou seja, pinta a realidade, muito mais "real" do que ela é, se é que isso é possível; Põe na tela pedaços da realidade, põe na tela a "própria realidade".

Com tudo isso, fica no ar uma pergunta: Por que as pessoas gostam tanto do cinema? A resposta talvez esteja compreendida dentro da seguinte frase: "Nesse mundo tudo é possível. No meu mundo tudo acaba dando certo." Esse trecho foi retirado de um diálogo de uma pérola do cinema arte, o filme " A Rosa Púrpura Do Cairo", de Woody Allen, onde o personagem sai do filme para viver na vida real. Woody Allen se impôs como o melhor autor-ator da atualidade. Nesse filme ele homenageia a comédia humana em geral e opõe os encantos do imaginário à dor de viver. Em seus filmes, aparecem freqüentemente anti-heróis que mostram a falta de sintonia do homem com a realidade que o circunda.

Percebemos, assim, a busca incessante do ser humano pela ficção, pelo sonho, pelo irreal, pela realização de todas as suas vontades. É nesse mundo de fantasia que tudo pode se concretizar, que todos nossos desejos e sonhos acontecem da maneira mais completa, mais bonita. E pelo menos neste mundo que podemos sonhar livremente, sempre sem deixar, porém, de ser abstrato.

O cinema, enquanto estiver vivo, nos fará diariamente um convite: saia da realidade, nem que por alguns poucos minutos, viva a eterna beleza do cinema e sinta o delicioso gosto da ficção. Deixe correr em suas veias a adrenalina de uma cena de ação. Sinta o suspense, o drama, o amor...



Bibliografia


Filmografia