Era uma vez uma traficante chamada Chapeuzinho Vermelho, que só lidava com drogas pesadas e dominava quase todos os pontos da favela da Floresta Encantada. Para onde quer que se olhasse, muros, postes ou calçadas, via-se as iniciais CV pixadas em vermelho. Porém, certo dia, apareceu uma concorrente no pedaço, a renomada comerciante de drogas conhecida pela alcunha "Vovozinha".
Após algum tempo, a Vovozinha conseguiu superar, e muito, a venda de drogas de Chapeuzinho Vermelho. Esta, que não era nem de longe a personificação da calma e da compreensão, resolveu pôr um fim em tudo aquilo. Decidiu disfarçar-se de usuária e ir até a boca-de-fumo da Vovozinha, com o objetivo de passar a velha dessa para melhor.
Porém, a velhota tinha um ótimo serviço de informações e ficou sabendo de todos os planos de CV. Com o intuito de armar uma emboscada, a Vovozinha ordenou ao seu melhor capanga, conhecido por Lobo-Mau, que ficasse na boca disfarçado de Vovozinha, à espera de Chapeuzinho Vermelho. Ele relutou um pouco em colocar um vestido e uma touca na cabeça, porém, acabou aceitando após notar a arma apontada para suas, digamos, partes íntimas.
Então o momento fulminante chegou. Chapeuzinho Vermelho foi até a boca da Vovozinha usando uma camisa dos Racionais e ouvindo um CD do Planet Hemp. Pediu ao vapor duas trouxas de maconha e, quando este se virou para pegar a droga, não hesitou. Sacou seu berro e mirou a cabeça do vapor enquanto metia um chute na porta, escancarando-a. O tiro entrou pela nuca e saiu pelo olho direito. Antes que Lobo-Mau, disfarçado de Vovozinha, pudesse esboçar reação, Chapeuzinho Vermelho alinhou a cabeça dele com o cão e a alça de mira.
"É o bicho, Vovozinha, tá sacando? Aí, essa boca é minha, tá sabendo? Tu não tinha nada que vender droga aí, valeu? E agora eu vou passar você!!"
"Qualé, Chapeuzinho Vermelho, dá um tempo aí!!! A gente não pode trocar uma idéia e tal???"
"Caralho, mas que voz grossa, Vovozinha!!!"
"Ah, eh, é que eu... eu comi uns bagulho que fez mal."
"Só. E esses olho vermelho, que é que tá rolando?"
"Aí, é que eu fumei uns baseado, tá sabendo?" - disse Lobo-Mau levando uma das mãos às costas para sacar o berro.
"Levanta os braço, Vovozinha. Se tu tentar alguma coisa, eu meto uma bala bem no meio dos teus olhos.
Porra, Vovozinha, mas que sovaco mais cabeludo!!!"
"É que eu tô sem gillete, sabe como é?"
"Tô sabendo. E tô sabendo também que tu não é Vovozinha porra nenhuma. Tu é aquele capanga da véia, como é mesmo teu nome?"
"Lobo-Mau."
"Isso. Tu vai levar chumbo, e é agora!!!"
"Calma aí, cal..."
Lobo-Mau não terminou a frase. O primeiro tiro saiu pela testa. O segundo atravessou o pescoço. O terceiro tiro de Vovozinha acertou em cheio o coração de Chapeuzinho Vermelho. Vovozinha saiu detrás da porta, e Lobo-Mau apenas exclamou, com uma gota de sangue escorrendo pela face:
"Valeu, Vovozinha. Pensei que essa vadia ia mesmo me passar."
Cleverson L. Picolis
meados de 1998 (na época em que eu fazia parte do Tecefet)